/
/
Personalização e sustentabilidade: uma combinação que não dá match

Personalização e sustentabilidade: uma combinação que não dá match

De um lado, as maravilhas do “feito sob medida para mim”. De outro, as necessidades do consumo consciente. Duas ideias que se misturam como água e óleo
Legenda da foto

Passo naquela cafeteria de marca global para pedir meu cappuccino com leite de amêndoas, canela, chocolate em pó sem chantili, tamanho “tall”. O copo chega com meu nome escrito. Ah, as delícias da personalização!

Eu, do meu lado, degusto meu cappuccino, sorvendo calmamente cada gole do copo (descartável) com meu nome escrito. Não deixo de usar o mexedor, de algum tipo de madeira (será que é descartável?) e guardanapos de papel.

A famosa rede de cafés, conhecida também por ser o “terceiro lugar”, entre a casa e o escritório, é também entusiasta do “capitalismo consciente”. Uma quase excêntrica visão do capitalismo, assim batizada por John Mackey (fundador da Whole Foods, rede de supermercados queridinha dos amantes da alimentação natural e da sustentabilidade, vendida para Amazon) e Raj Sisodia, em um livro clássico de anos atrás.

Conheça o Mundo do CX

Essa concepção de capitalismo consciente envolve a adoção de muitas políticas que se organizam, nos dias de hoje, sob a sigla ESG.

Os leitores e leitoras já sabem, a sigla em inglês para “Meio-ambiente, Impacto Social e Governança”, um conjunto de atitudes e posturas que as empresas devem (deveriam?) adotar para assegurar a saúde dos negócios, das comunidades e do planeta ao mesmo tempo.

Paralelamente, a expansão da digitalização acelerou uma ideia antiga e sempre exaltada: a personalização. Temos aqui um conceito poderoso: a capacidade de coletar dados abundantes sobre os clientes, por meio de interações digitais nos diversos canais – site, e-mail, chat, WhatsApp e outros aplicativos de mensageria, redes sociais, tótens interativos nas lojas, apps de e-commerce, etc.

Esses dados são analisados por sistemas combinados de IA com analistas humanos para gerar insights que alimentam estratégias e possibilidades de personalização de produtos, serviços e ofertas.

Logo, de um lado temos as pressões por empresas mais conscientes, transparentes e sustentáveis. De outro, temos consumidores querendo e mais dispostos a consumir produtos personalizados.

Essa conta não fecha.

Vamos lá. Personalização, pela sua própria essência, por mais que tenha origem em processos racionais de produção, é o exato contrário da ideia de economia circular, por exemplo. Se algo foi feito para mim, se permite e enfatiza minha autoexpressão, por que serviria para você?

Logo, a personalização excessiva não seria um convite ao descarte ilimitado? Ainda que faça questão de consumir produtos “taylor-made” da forma mais sustentável possível, esses produtos só servem, têm significado e sentido para mim.

E isso vai muito além de anagramas, cores e padrões que eu escolhi, que cada consumidor pôde escolher. Esse produto personalizado faz parte da minha relação com a empresa, é quase uma assinatura minha dentro da interação transacional e relacional que mantenho com ela. Após meu uso, só o descarte faz sentido.

Voltando ao caso da cafeteria famosa.  O meu cappuccino personalizado, como o chai da menina da geração Z ou o macchiatto da pessoa mais sênior, com as muitas possibilidades de personalização – essências, caldas, sabores, toppings, tamanhos. A personalização deles consome matérias-primas de forma pouco eficiente. Em doses menores. Em escalas não tão representativas e com maiores possibilidades de descarte precoce ou uso ineficiente e não-intensivo. Em outras palavras, a personalização é um elemento de ineficiência potencial. Customização e personalização são facetas obscuras e incoerentes na promessa do “capitalismo consciente”.

Claro, personalização por si é um fator crítico dos mais relevantes para a criação de réguas de experiência eficientes. Reafirma identidades e permite que o cliente seja reconhecido em cada momento de sua jornada com uma empresa. Mas é convite ao desperdício, onde processos de produção foram empregados para atender desejos pontuais, ocasionais e não necessariamente relevantes.

Mas há formas de conciliar estas ideias tão fortes e atrativas para os clientes? Aqui entra o desafio para os gestores, empreendedores, inovadores: como conciliar percepções e desejos tão distantes entre si? É possível pensar em “personalização sustentável”?

Na verdade, o fato consolidado é que personalização é uma ideia e uma prática muito mais consolidada do que a sustentabilidade. Claro, toda a questão ambiental, separação e descarte de resíduos sólidos, coleta, reciclagem… tudo isso é tão complexo e tão distante da realidade das pessoas que parece extraterrestre.

A sustentabilidade não se provou como valor, não fala à realidade e à necessidade das pessoas comuns, até porque não se tornou uma plataforma com ideias e uso comum, fácil, lógico e intuitivo para as pessoas.

Leia mais: Falta experiência do cliente na agenda ESG

Personalização, por sua vez, é uma ideia consolidada. As pessoas adoram a ideia de ter alguma coisa que parece realmente “feita para elas” (feito para mim).

As empresas já dominaram técnicas e tecnologias que permitem customização em níveis razoavelmente massivos e eficientes. Personalização é elemento central do CX. Assegura recorrência, cria o delight e proporciona a sensação de “eterna descoberta”, essencial para engajar clientes. Mas “eterna descoberta” pressupõe consumo pessoal, seletivo, premium, logo não exatamente sustentável, circular, consciente. Ou seja, falta coisa aí pra dar o match.

Enquanto isso, deixei meio de lado meu cappuccino com leite de amêndoas, canela e chocolate em pó, sem chantili, tamanho tall. Optei por um outro, chamado “degustação”, de uma chocolateria muito incrível, com uma pegada sustentável bem interessante e muito apoio à comunidades locais. Não é personalizado, mas a experiência é única.


+ Artigos

Um labirinto de opções pode ajudar a engajar os clientes?

Hora de recomeçar: o desafio de fazer um varejo melhor

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Com parceria de afiliados da Shopee, Meta tenta transformar Reels e Feed em vitrine de comissão para criadores de conteúdo.
Instagram disputa creators com expansão do programa de afiliados
Com parceria de afiliados da Shopee, Meta tenta transformar Reels e Feed em vitrine de comissão para criadores de conteúdo
Prime Day: como Nubank e Amazon blindam milhões de transações contra fraudes
Amazon Brasil e Nubank ampliam parceria com checkout completo e reforço da cibersegurança
Com 94% dos atendimentos digitais e 388 mil medidores inteligentes, Comgás acelera o CX
Presença confirmada no CONAREC 2026, Thiago Trevisan explica como tecnologia, dados e governança estão impulsionando a transformação da Comgás
AWS investe US$ 1 bilhão para acelerar a adoção de IA em empresas
Empresa acaba de lançar uma frente de negócios dedicada à implantação de IA dentro das empresas clientes

Webstories

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]


Leandro Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Carolina Paes
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Gerente
Leonam Dias

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

O seu @ será o novo contato Protocolo pode virar prova na Justiça Quem assiste futebol só pelo futebol? Parceria entre McDonald’s e Coca-cola pode estar em crise