Quais são os elementos capazes de ameaçar a democracia, levando em consideração o cenário global, seus impactos sociais no Brasil e a posição do país no palco internacional? Essa questão foi o ponto de partida da participação de Ian Bremmer, presidente e fundador do Eurasia Group, empresa de consultoria e pesquisa de risco político, na Febraban Tech.
Ao analisar como as dinâmicas política e de segurança nacional movem os mercados e moldam os ambientes de investimento em todo o mundo, Bremmer avalia que estamos em um novo momento da globalização, com um período de fragmentação. “Isso não é bom, cria ineficiências, na medida em que estamos investindo no mundo inteiro”.
Ele resume as manchetes que estão elevando incertezas para mercados a partir de três aspectos:
Rússia
O país não foi integrado ao mundo ocidental nas decisões globais após a queda da União Soviética e, apesar de um declínio severo, é muito poderoso. “Esse combo explica por que os russos não gostam do ocidente”, sustenta.
China
Foi integrada nas instituições globais mas, para os EUA, a ideia era de que a China, à medida que se tornasse mais poderosa e rica, se posicionasse culturalmente mais próxima de um país como os EUA, “mas eles continuam sendo chineses – e os americanos não estão confortáveis com isso”, explica Bremmer.
Falta de representatividade
Estamos vendo, nas democracias do mundo inteiro, que milhões de pessoas sentem que seus líderes não os representam, que não têm interesse pelo bem maior, e isso é um sintoma de debilidade das instituições políticas: As democracias estão enfraquecendo. “Por isso, vimos dois grandes exemplos: os atos de 6 de janeiro de 2021, nos EUA, e de 8 de janeiro deste ano no Brasil – há uma polarização cada vez maior em boa parte das democracias ao redor do mundo”.
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Desafios estruturais
Esse movimento não tem nada a ver com líderes individuais, indica o cientista político. “Notem não mencionei nenhum líder individualmente para as três razões que acabei de mencionar pelo que as políticas estão criando mais incertezas dos mercados. Os desafios são estruturais, já estão vindo há décadas”.
Ele acredita que, independentemente das próximas eleições, dos próximos movimentos, essa “recessão geopolítica” irá permanecer de forma estrutural por pelo menos cinco, 10 ou talvez 20 anos ou mais. “Isso explica por que uma conversa como essa é muito mais relevante hoje do que seria há cinco anos”, explica Bremmer.
A questão geopolítica mais importante do momento é a Rússia, vaticina. “O fato é que Putin não está indo a lugar nenhum. Em algum momento ele vai embora. É impossível prever esse tipo de incerteza num país com tanto autoritarismo e, apesar dessa tentativa de golpe de estado recente, não vemos mudança, até pela falta de transparência da situação interna russa”, detalha.
Para Bremmer, o fundamental é o custo da guerra com a Ucrânia. Porque a Europa pagará por ela independentemente dos resultados, porque o engajamento da Rússia com a Europa acabou. E além da segurança cibernética, a questão energética vai ter um papel essencial na reconfiguração dos mercados e investimentos no pós-guerra. “A Europa é o maior mercado comum do mundo. E as questões que essa guerra levanta vão impactar alimentos e fertilizantes no mundo todo”.
Em relação à China, o cientista político avalia, que exceto pelos Estados Unidos, praticamente ninguém quer se indispor com a maior potência econômica global, no que ele chama de “guerra fria entre EUA e China”. “A questão é a seguinte, os bancos americanos, as empresas americanas são muito mais semelhantes ao Brasil, à Alemanha, do que com o sistema político americano”, avalia Bremmer.
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Nesse sentido, o grande desafio político para o Brasil é a economia chinesa não estar indo tão bem. Assim como a questão demográfica ser um complicador, com os custos da mão-de-obra subindo. “Vemos um desacoplamento, e o uso das novas tecnologias, como as de duplo uso, a inteligência artificial, podem fortalecer o relacionamento comercial e as decisões do Brasil com a China nos próximos anos. O grande desafio em relação à China não é político”.
A terceira questão, reforça, é a democracia nos Estados Unidos e a democracia na Europa. “Nós estamos vendo, a cada dia, que as instituições políticas nesses países estão se estressando, estão sendo esticadas, tem muitas notícias ruins”, diz. Mas Bremmer destaca uma boa notícia: a União Europeia está se fortalecendo, apesar de haver tensionamento nos países que formam o grupo. “A UE está impulsionando mais coerência de políticas unificadas em relação a energia, defesa, saúde e também em relação ao clima e no ambiente fiscal. O poder de tomada de decisão está saindo das capitais europeias e indo para Bruxelas”.
A América Latina, que está em um ambiente com maiores taxas de juros, com maior inflação após três anos de pandemia. “O dinheiro da América Latina precisa que haja governança. As pessoas estão diferenciando tudo com base na análise de se os países entendem como governar num ambiente mais desafiador”, indica.
O Brasil faz parte da parcela de países com uma boa economia. Para Bremmer, não importa que seja Bolsonaro ou Lula, a estabilidade brasileira é uma das razões pelas quais seu grupo, Eurasia, investe estruturalmente mais no Brasil do que em qualquer outra economia em desenvolvimento. “Estou colocando meu dinheiro onde tenho esses sinais”, revela.
E a tecnologia com isso?
Já sobre tecnologia, a grande discussão gira em torno da Inteligência Artificial (IA). Bremmer acredita que a IA vai impulsionar novas capacidades no mundo das ciências em todos os aspectos. “Com bilhões de pessoas com acesso à internet, à IA, a saúde vai melhorar, também a educação. Eu acredito em globalização 2.0”.
Por outro lado, Bremmer acredita que a IA será um problema em termos políticos. Se há seis meses nenhum chefe de estado falava sobre o assunto, ele revela que atualmente essa é uma das principais questões que pairam no G7, no G20, no Fórum Econômico e no FMI. “Eles estão vendo bilhões de dólares estão sendo investidos pelas empresas tecnológicas, impulsionando resultados, mas estados não tem experiência nem instituições. Eles não têm ideia de como regular a IA, estão atrasados”, alerta.
Os desafios da Inteligência Artificial
Para Bremmer, há quatro pontos perigosos em relação à IA:
– Desinformação
Não se consegue mais diferenciar mais uma conversa com um humano ou com um robô. “Nós não sabemos com quem estamos conversando, se é um robô ou se uma pessoa e, por décadas e décadas, este foi o Santo Graal da IA”, diz. “Se você não sabe mais quem está contando a verdade e quem está mentindo, a democracia vai ser minada pela base”, adverte, ressaltando que cidadãos têm direitos e bots não. A IA vai fazer com que os mercados livres vejam mais difíceis para serem navegados. “É uma coisa altamente perigosa. Não temos nenhuma resposta para isso até agora”, argumenta.
– Proliferação: a questão da geração
“Existem centenas de pessoas no mundo com conhecimento sobre tecnologia que tudo podem desenvolver, milhões de pessoas com capacidade de gerar malwares – eu não sei como lidar com isso”. A IA é um território muito frutífero para criminosos cibernéticos, receia Bremmer. E essa proliferação não está sendo endereçada ainda.
– Deslocação: pessoas vão perder seus empregos
“A IA fará outras pessoas serem mais produtivas. Eu não acredito que esse risco de deslocamento impacta a economia global. Acho que teremos mais empregos gerados pela IA do que empregos perdidos”, defende Bremmer. Porém, ele concorda que a tecnologia vai afetar diferentes pessoas de variadas formas. E alerta para o risco de as pessoas que perderem seus meios de vida ficarem muito furiosas. “Elas vão se juntar a todas outras pessoas zangadas que já estamos vendo por aí, nas ruas, dizendo que ‘democracia, uma porcaria’, que ‘temos de destruir nossos governos’. Essa fragmentação, essa polarização, essa raiva vão piorar”.
– Substituição: as pessoas conversam mais com algoritmos do que com pessoas
“As pessoas estão sendo tratadas como produtos, e pagam isso ao invés de se engajar com pessoas. Nós estamos ensinando nossos filhos a se tornarem antissociais”. A partir disso, Bremmer defende uma regulamentação. “Eu colocaria, sobre a IA, restrições para que crianças e jovens com menos de 16 anos não possam usá-las sem uma supervisão direta dos pais ou professores. Não podemos nos dar ao luxo de uma geração de cidadãos crescer por algoritmos inumanos”, conclui.
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