Um dos grandes desafios no mundo corporativo é olhar para a Inteligência Artificial não apenas do ponto de vista dos algoritmos e das experiências, mas também da sua capacidade de fortalecer o elemento humano. A questão agora é entender como a IA, na prática, tem gerado vínculo, muito além do transacional, criando uma conexão emocional e facilitando a vida das pessoas.
Essa relação entre tecnologia e conexão humana foi uma das principais discussões do painel “Do match ao vínculo: como a IA está transformando a forma de se conectar”, no CONAREC 2026. Mediado por Patricia Cotti, sócia-diretora da Goakira, o debate reuniu Carlos Brando, diretor de Tecnologia e Produto do Enjoei; Fabio Marcolino, vice-presidente de Inteligência Artificial e Dados do Grupo OLX; Maria Fernanda Zanusso, head sênior de Marketing para América Latina do Tinder; e Pablo Rio, CEO da Noovi.
Na prática, a IA já encurta etapas que antes exigiam esforço do consumidor. No Enjoei, o chamado “upload mágico” permite fotografar uma peça para que a tecnologia identifique o produto e sua categoria, gere uma descrição e sugira um preço. Brando contou o caso de um usuário que experimentou o recurso por curiosidade e acabou descobrindo o valor de peças que estavam paradas em casa.
“Descobri que eu tinha R$ 10 mil no meu guarda-roupa que eu não usava”, relatou Brando, reproduzindo a mensagem recebida do usuário. Segundo ele, a facilidade fez com que o consumidor fotografasse praticamente todo o guarda-roupa e vendesse boa parte dos itens. “A IA tem um poder muito forte no match, mas ela nos ajudou, nesse momento, a tornar o match possível.”
Quando facilidade vira conexão
No Grupo OLX, a redução de esforço também aparece na criação de anúncios. De acordo com Marcolino, processos que levavam cerca de dois minutos podem ser realizados em dez segundos com IA, enquanto textos melhores contribuem para aumentar a conversão. “A tecnologia ganha relevância quando consegue ir além da eficiência e participar de decisões importantes na vida do consumidor.”
O executivo citou o caso de um usuário que encontrou pela plataforma um terreno no Mato Grosso adequado à instalação de uma fazenda de energia solar e acabou mudando sua trajetória profissional. “Acho que esse é o potencial de gerar um vínculo emocional: você, de fato, pode entrar e transformar a vida da pessoa”, completou.
No Tinder, a IA também é usada para facilitar conexões sem substituir a escolha individual. A plataforma conta com tecnologia, por exemplo, para sugerir perfis mais alinhados aos interesses do usuário e oferece o Photo Selector, recurso que ajuda a organizar as fotos do perfil.
“A tecnologia vem para facilitar. Então, se a gente está falando de criar um vínculo bom, duradouro, ela vem muito aplicada em como te sugerir melhores sugestões de perfis que estejam mais alinhados com os seus interesses”, explicou Maria Fernanda. Mas, a decisão continua sendo do usuário. “No final das contas, ainda é uma decisão humana do consumidor, do usuário, em dizer sim ou não.”

Fidelizar exige mais
Se o algoritmo ajuda a encontrar, fidelizar exige mais. Rio acredita que o vínculo pode ser entendido como a capacidade de ser escolhido novamente. “O match é escolher, o vínculo é escolher novamente, escolher mais e mais repetidamente, N vezes.”.
Na avaliação do executivo, um dos momentos mais importantes surge diante de um problema. “O vínculo, fora do Tinder, surge do atrito. Ele normalmente não surge da experiência, do caminho feliz. O caminho feliz é o previsível, é o óbvio.”
Personalizar sem mascarar a realidade
Quanto mais a IA interfere na experiência, maior também é a responsabilidade do que é apresentado ao consumidor. No Enjoei, Brando explicou que a empresa evita usar a tecnologia para melhorar imagens quando a alteração pode criar uma expectativa diferente do produto real.
“Seria muito fácil, com a tecnologia que a gente tem, pegar uma fotografia de uma peça e melhorá-la”, disse o executivo, acrescentando que a empresa prefere não seguir esse caminho quando não consegue assegurar que cores, caimento ou eventuais defeitos serão reproduzidos com fidelidade. “Escolhemos não entrar com a Inteligência Artificial ainda nessa etapa para poder melhorar a satisfação e o engajamento da pessoa.”
A OLX segue na mesma linha. Em anúncios de veículos usados, por exemplo, a tecnologia não deve apagar um risco ou amassado que faça parte das condições reais do automóvel. Marcolino reforçou que a companhia aceita limitar ganhos potenciais quando não consegue garantir os controles necessários. “Podíamos capturar um resultado melhor. Estamos capturando 30% de melhora, mas poderia ser 50%. Se não temos certeza do que vai acontecer, o nosso ponto é eliminar esse risco.”
A decisão final é humana
No Tinder, esse limite chega à própria interação entre as pessoas. Maria Fernanda explicou que a plataforma não permite que uma IA dê um “like”, inicie uma conversa ou marque um encontro no lugar do usuário. “Isso precisa ser uma decisão pessoal.”
Segundo Rio, a expansão da tecnologia torna governança e transparência ainda mais importantes. “As empresas precisam adotar a tecnologia com responsabilidade e com governança”, disse, acrescentando que a IA corporativa já exige uma postura diferente da fase inicial de experimentação: “As empresas agora têm que lembrar que tudo é governado, inclusive a IA”, concluiu o executivo.





