- O fim da escala 6×1 pode consumir até 15% do lucro de empresas do agronegócio e da indústria de alimentos.
- Frigoríficos, usinas de açúcar e etanol e fabricantes de alimentos estão entre os segmentos mais expostos aos custos adicionais com mão de obra.
- O aumento dos custos de produção também levanta a discussão sobre os preços dos alimentos.
A redução da jornada de trabalho pode pressionar as margens de empresas ligadas ao agronegócio brasileiro. Frigoríficos, usinas de açúcar e etanol e fabricantes de alimentos estão entre os segmentos mais expostos aos custos adicionais com mão de obra, segundo análise do BTG Pactual divulgada ontem, 19. Para algumas companhias, a despesa pode consumir uma parcela de dois dígitos do lucro líquido projetado para 2027.
Entre as empresas analisadas, a MBRF pode ter um custo adicional anual de R$ 824 milhões, enquanto a JBS pode desembolsar cerca de R$ 1 bilhão por ano. Os valores estimam o impacto da reposição das horas de trabalho que deixariam de ser cumpridas com a redução da jornada, sem diminuição dos salários.
O efeito também alcança a indústria de alimentos. Na M. Dias Branco (MDIA3), o BTG estima uma despesa adicional de R$ 163 milhões por ano, equivalente a 12,8% do Ebitda e a 15% do lucro líquido projetados pelo banco para 2027.
Na Camil (CAML3), o custo adicional estimado chega a R$ 53 milhões anuais, o equivalente a 4,5% do Ebitda e a 12% do lucro líquido previstos para o mesmo período.
Mão de obra e custos de produção
No agronegócio, a discussão envolve atividades que não podem ser interrompidas facilmente. Frigoríficos, por exemplo, precisam manter o processamento de animais e organizar turnos para atender à demanda. Na produção agropecuária, determinadas etapas também dependem de rotinas de manejo e de períodos específicos para execução das tarefas.
A preocupação com a disponibilidade de trabalhadores aparece no Paraná. Um estudo do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP estima que a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas poderia gerar um custo adicional anual de R$ 4,1 bilhões para a agropecuária do estado.
O cálculo considera uma base de 645 mil postos de trabalho e uma massa salarial anual de R$ 24,8 bilhões, incluindo salários e encargos obrigatórios. Segundo a entidade, seria necessária uma reposição de 16,6% da força de trabalho para cobrir as horas não trabalhadas, por meio de novas contratações ou do pagamento de horas adicionais.
O levantamento estima a necessidade de 107 mil novas contratações para manter o nível atual de produção.
Para o Sistema FAEP, a mudança pode aumentar a pressão sobre a rentabilidade dos produtores, que já enfrentam custos elevados, juros altos e dificuldades para contratar trabalhadores. A entidade também aponta possíveis reflexos sobre os preços dos produtos e a informalidade.
A dimensão econômica do setor ajuda a explicar a relevância do debate. Em 2025, a agropecuária brasileira gerou R$ 775,3 bilhões em valor adicionado, o equivalente a aproximadamente 6,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. O agronegócio, que inclui outras atividades além da produção agropecuária, respondeu por 25,1% do PIB em 2025, de acordo com estimativa do Cepea/USP.
Pressão pode chegar ao consumidor
O aumento dos custos de produção também levanta a discussão sobre os preços dos alimentos. Caso as empresas não consigam absorver integralmente as despesas adicionais, parte delas poderá ser repassada ao longo da cadeia produtiva. O efeito sobre o consumidor, porém, dependerá das condições de mercado, da concorrência e da capacidade de cada companhia de reorganizar suas operações.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também vê riscos na redução da jornada para 40 horas semanais sem diminuição dos salários. A entidade avalia que a medida pode elevar os custos de produção, afetar a competitividade e pressionar os preços, além de dificultar a reorganização das escalas de trabalho.
Em nota, Ricardo Alban, presidente da CNI, afirmou que a entidade considera insuficiente o debate realizado sobre os efeitos econômicos da proposta.
“Lamentamos que a votação tenha sido feita sem mais debates com a sociedade brasileira e entendemos que os impactos dessa medida não foram devidamente mensurados. Após a constatação, por exemplo, da perda de competitividade e da alta inflação, acreditamos que o Congresso Nacional possa abrir espaço para revisitar o tema visando a encontrar a melhor solução para a economia brasileira”, declarou.
Segundo estudo divulgado pela confederação, o aumento dos custos de produção pode chegar a R$ 267,2 bilhões para o setor produtivo. A entidade também projeta retração de 0,7% do PIB, equivalente a R$ 76,9 bilhões, e alta média de 6,2% nos preços ao consumidor. Para as compras de supermercado, a estimativa é de aumento de 5,7%.
As projeções são da CNI e representam a avaliação da entidade sobre os efeitos da mudança. Os resultados efetivos dependerão das regras adotadas, dos prazos de implementação e das respostas das empresas.
Produtividade entra no debate
Para Victor V. Casaca, presidente da Abravidro, a redução da jornada precisa ser acompanhada de ganhos de produtividade para que o custo adicional não comprometa a competitividade da indústria nacional.
“ O Brasil está entre os países com menor produtividade por trabalhador, e isso não é culpa de quem trabalha, mas reflexo de infraestrutura deficiente, burocracia, pouco investimento em tecnologia e qualificação e do Custo Brasil”, afirmou.
Casaca cita dados do Panorama Abravidro para mostrar as dificuldades do setor de processamento de vidro. Mesmo com crescimento de 6% em 2025, após quatro anos de queda, a produção foi de 155,4 m² por funcionário ao mês. O indicador ficou cerca de 11% abaixo do pico registrado em 2015 e abaixo do nível de 2012, segundo os dados apresentados pelo executivo.
O presidente da Abravidro também afirma que as empresas enfrentam dificuldades para contratar e reter trabalhadores qualificados. Nesse contexto, a redução da jornada adiciona um desafio à organização das operações, especialmente em atividades que precisam manter a produção em funcionamento.
A discussão sobre o fim da escala 6×1, portanto, envolve diferentes variáveis: a jornada dos trabalhadores, a disponibilidade de mão de obra, a produtividade e a capacidade de as empresas absorverem custos adicionais. No agronegócio, onde parte das operações depende de continuidade e de períodos específicos de produção, a adaptação das escalas será um dos pontos centrais.
A Consumidor Moderno procurou MBRF e JBS, mas não recebeu retorno até o fechamento. A Cargill declinou o pedido de entrevista. O espaço permanece aberto.





