- Boa parte da indústria de eyewear e óculos da Itália produz em private label para grifes conhecidas. Com o acordo Mercosul-União Europeia, esses fabricantes querem aparecer com o próprio nome.
- O setor óptico brasileiro faturou R$ 28 bilhões em 2025, e entre 75% e 80% dos óculos vendidos no País são importados. A Italian Eyewear Exhibition trouxe 15 fabricantes italianos a São Paulo para disputar esse espaço.
- Armações que levam 41 dias para ficar prontas, tiragens numeradas e famílias na sétima geração miram um consumidor que quer exclusividade fora das megamarcas.
Você compra uma armação em uma ótica brasileira, com a logo de uma marca conhecida gravada na haste. Mas, pode estar levando para casa óculos italianos sem saber. Uma vez que boa parte da indústria de eyewear da Itália trabalha como fabricante para terceiros. Nesse caso, a marca escolhe o modelo, a fábrica italiana produz e a logomarca entra ao final do processo. Isso quando a produção não acontece no país, mas o acetato ou a máquina que corta a peça acabam vindo de lá.
“No fim do dia, tudo tem um pouquinho da Itália”, resume Caroline Milan, analista de Marketing e Novos Negócios da Italian Trade Agency. A agência funciona nas dependências do Consulado Geral da Itália em São Paulo.
Mas, agora, esses fabricantes querem aparecer com o próprio nome no território brasileiro. A aproximação entre a indústria óptica italiana e o mercado nacional se apoia em dois movimentos simultâneos.
Itália no Brasil em dois movimentos
O primeiro é o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, aplicado de forma provisória desde 1º de maio de 2026. O acordo prevê a redução gradual de tarifas de importação sobre bens europeus, incluindo óculos.
Já o segundo se dá em um consumidor que busca produtos premium e de luxo fora do repertório óbvio das megamarcas.
Foi esse cenário que incentivou a Italian Trade Agency a organizar a primeira edição brasileira do Italian Eyewear Exhibition, em paralelo à São Paulo Fashion Week. Quinze fabricantes italianos, alguns ainda sem presença no Brasil, apresentaram coleções a óticas, distribuidores e compradores de 13 países latino-americanos.

Foto: LinkedIn/Reprodução.
Novo momento para a importação
O acordo de parceria entre o Mercosul e a União Europeia estabelece uma nova zona de livre comércio. Com a aplicação provisória, passou também a ser desenvolvido o cronograma de eliminação tarifária nos setores industriais e agrícolas. Na indústria, a União Europeia se compromete a eliminar 100% de suas tarifas em até 10 anos.
Já do lado do Mercosul, a liberação será mais gradual, com prazos de até 30 anos para produtos sensíveis. A entrada em vigor definitiva depende da aprovação do Parlamento Europeu, e o texto passa por análise no Tribunal de Justiça da União Europeia.
O acordo possibilita um intercâmbio com uma das indústrias de eyewear mais relevantes do mundo. São cerca de 800 empresas, 22,8 mil profissionais e 5,64 bilhões de euros em produção. Sendo que quase 90% do que é fabricado no país é destinado à exportação, segundo a Italian Trade Agency e a ANFAO, associação italiana dos fabricantes de produtos ópticos.
Para esse setor, o Brasil é um mercado estratégico que vinha perdendo fôlego. As exportações italianas de eyewear para o País recuaram 13,8% em 2025, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Óptica (Abióptica).
Itália por trás da produção de óculos
A relação entre os dois mercados não começa com o acordo. Todo mês de fevereiro, o Mido, uma das maiores feiras do setor óptico do mundo, realizada em Milão, recebe compradores brasileiros em peso. Muitos dos expositores italianos fabricam para outras marcas no modelo de private label.
“Muitas vezes, a pessoa vai a uma loja aqui no Brasil, compra de uma grande marca achando que é ela que produz. Mas, na verdade, é uma empresa italiana que está produzindo”, explica Caroline Milan.
Segundo ela, há marcas brasileiras de qualidade ganhando espaço no País, mas a produção nacional não tem escala para atender à demanda. O setor óptico brasileiro faturou R$ 28,079 bilhões em 2025, alta de 4,15% sobre o ano anterior, de acordo com a Abióptica. Ainda, segundo a associação, o Brasil produz cerca de 25 milhões de pares de óculos por ano.
Com um volume total comercializado estimado em 106,5 milhões de unidades, entre 75% e 80% do mercado é abastecido por importações provenientes, principalmente, da China, seguida pela Itália e pelos Estados Unidos.
Agora, com o acordo, as fabricantes italianas ganham um incentivo para deixarem de ser fornecedoras invisíveis por trás da logo de outra marca. E, assim, passam a disputar a vitrine com seus próprios nomes.
O novo exclusivo
O segundo motor da aproximação está no comportamento do consumidor. Para Caroline Milan, o Brasil conta com a presença de grandes marcas de luxo, com grifes globais como Tiffany&Co, Prada, Gucci, Armani e Miu Miu.
“Muitas vezes, um consumidor quer comprar algo diferente, de qualidade, mas não quer comprar de grandes marcas”, observa. Os óculos italianos ocupam essa lacuna, com uma faixa mais ampla de preço, do produto de entrada à peça de colecionador. “Você pode ou não gastar uma fortuna, mas pode ter a certeza de que é um produto de qualidade, durável, com história.”
Parte dos fabricantes italianos está na quinta, sexta ou sétima geração da mesma família, com conhecimento passado de pai para filho. É o caso da Nannini, que produz o próprio acetato em uma de suas linhas, fazendo tudo dentro de casa, do material bruto à armação pronta

Imagem: Divulgação.
A Ultra Limited, por exemplo, leva 41 dias para produzir cada armação. Durante esse período, entre 8 e 12 placas de acetato são prensadas, resultando em uma combinação de cores única. O resultado é que nenhuma unidade é igual a outra. Ou seja, cada consumidor possui sua própria armação. São 196 novos tons a cada seis meses.
Já a Pier Martino utiliza cristais fornecidos pela Swarovski em seus modelos, que levam o nome de Bohemian Crystals. Um dos modelos da marca conta com 400 cristais.

Imagem: Divulgação.
Esse tipo de procedência vira argumento em um mercado em que o logo sozinho garante cada vez menos. Segundo a Abióptica, metade dos 106,5 milhões de óculos vendidos por ano no Brasil é falsificada ou de origem ilegal.
Da funcionalidade à arte
O designer Piero Massaro, um dos expositores em São Paulo, destaca que os óculos não representam uma farda. “Não se trata de usar um produto com uma assinatura para se sentir alguém. Você usa um Piero Massaro porque já é alguém.”
Siciliano radicado no Vêneto, Piero Massaro chegou ao universo dos óculos pela moda. Depois de começar sua carreira como estilista em Milão e colaborar com fabricantes de óculos, fez a si mesmo uma pergunta há cerca de 25 anos: por que não fazer roupas para o rosto?
“Os óculos nascem para ser um suporte que segura duas lentes. São uma prótese. Eu quis transformar essa prótese em uma roupa para o rosto”, diz. As peças de sua coleção representam essa ideia. São designs coloridos, ousados, com a assinatura artística de quem os idealizou.

Foto: LinkedIn/Reprodução.
Criação e design
O apelo estético da marca vem acompanhado de engenharia. Massaro fala em anatomia do nariz, equilíbrio entre frente e hastes e ângulo pantoscópico, a inclinação da armação em relação ao rosto. “Quem usa um Piero Massaro é como quem veste um paletó feito por um alfaiate: quando você veste, não sente.”
Os óculos são feitos a partir de um acetato de origem vegetal, chamado Rhodoïd. Ainda, as hastes têm uma dobradiça tipo baioneta patenteada internacionalmente e feita em aço AISI 316L. As hastes podem ser removidas e trocadas por outro modelo, mecanismo também patenteado. As coleções saem em tiragens limitadas e numeradas.
Essa foi a primeira vez de Piero Massaro no Brasil, embora já tivesse clientes brasileiros conquistados nas feiras de Paris e Milão. “Os brasileiros querem algo diferente, algo novo, que dê conforto no rosto, mas que, com as cores e os materiais, também provoque sorrisos”, afirma. “É a coisa mais bonita que um designer pode ver: alguém usando a sua criação com naturalidade e um sorriso nos lábios.”
Construção de parcerias
A proposta da Italian Eyewear Exhibition está em contar histórias como a de Piero Massaro, criando parcerias que vão além de pedidos pontuais de importação. Como explica Caroline Milan, essas colaborações podem se dar por meio de licenciamentos, acordos de private labels ou até mesmo a importação de marcas para estamparem vitrines em todo o País.
Com consumidores cada vez mais em busca de produtos e experiências premium e de luxo, fabricantes italianas encontram um mercado que anseia por novidades que saem da bolha do que já conhecem por exclusividade.





