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As reviravoltas na sorte da Atari

As reviravoltas na sorte da Atari

Há mais semelhanças entre os Beatles e a Atari do que pode julgar a vã filosofia. Duvida?
Legenda da foto

Era uma tarde fria de 30 de janeiro de 1969. No alto do antigo prédio da gravadora Apple, quatro rapazes saídos de Liverpool, outrora alegres e vibrantes, afinam os seus instrumentos quase em silêncio. Uma entreolhada seca e logo surgem os primeiros acordes da canção Get Back. Lá embaixo, britânicos incrédulos ouvem a música e se aglomeram em frente ao edifício localizado no número 3 da Saville Row street. E deliraram. Naquele dia, os ricos e endeusados músicos dos Beatles fizeram o último show e colocariam um fim a uma das mais brilhantes carreiras de uma banda de rock da história. Era o fim digno. No topo. Literalmente.

Em outro lugar do planeta, uma empresa norte-americana iniciava sua trajetória ascendente e que mais tarde se transformaria em um dos grandes ícones da cultura pop – possivelmente, tão emblemático quanto os próprios Beatles. Exagero esquizofrênico? Não para fãs de tecnologia que viram florescer o fenômeno da Atari, a primeira indústria de sucesso no universo do videogame.

A história da Atari é pródiga na criação de teorias conspiratórias que expliquem a ascensão no gosto popular. Como já foi dito, ela não foi a primeira indústria de sucesso no universo dos videogames. Ela, inclusive, foi acusada de plágio pela empresa Magnavox, uma de suas concorrentes.

Há quem diga que o sucesso da empresa está relacionado a algo que o norte-americano aprendeu a criar e cultivar como poucos ao redor do mundo: a criação de um ícone ou o endeusamento do fundador de uma determinada empresa. E a Atari tem um dos maiores nomes no universo dos videogames: o engenheiro eletrônico, Nolan Bushnell.

 

Mão de sorte

Bushnell conheceu bem as variações da sorte que assombram ou são vitais para um jogador profissional. Esse aquariano de família mórmon foi o menos ortodoxo dos seguidores da Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e por um motivo bem simples: o pôquer.

Os jovens do tempo dele (e mesmo os de hoje) sonham com a fama repentina no carteado e, de preferência, em um palco como Las Vegas. Bushnell não apenas sonhou com a vida no pôquer, mas investiu nela. E ao investir nela, cometeu uma daquelas besteiras típicas de adolescentes sonhadores. Na obra The Ultimate History of Videogames, o jornalista Steve Kent conta que Bushnell gastou o dinheiro da matrícula da Universidade de Utah na inscrição de um campeonato de pôquer. A mão no pôquer não foi boa e, claro, ele não levou a bolada.

O mundo do jogo ensinara a Bushnell a primeira grande lição de sua vida: a banca sempre vence. Sem dinheiro, procurou emprego aqui e ali e, por ironia do destino, encontrou um em um fliperama. O resto é história. Foi ali que juntou dinheiro e ingressou no curso superior. A experiência adquirida no trabalho associado à faculdade fez desenvolver jogos como Pong, uma revolução em diversão eletrônica.

O crescimento da empresa foi mais rápido que os créditos que se esvaiam no decorrer de um jogo eletrônico. No início dos anos 1970, a fama já era grande, o que atraiu milhares de jovens talentosos do Vale do Silício a trabalhar na Atari. Um desses empregados foi o jovem Steve Jobs, que logo cedo mostrou a fama de marrento que ganharia fama ao redor do mundo. Mas, dentro da empresa, Bushnell apostava alto no jovem programador e admirava o trabalho de Jobs.

Na década de 1970, a empresa virou suas atenções para o mercado de consoles caseiros. E foi em 1977 que lançou o seu maior sucesso: Atari 2.600, um marco na história do videogame. Com a plataforma vieram jogos como Riverraid, Pitfall e o Pac Man. Esse último, aliás, é uma criação da japonesa Namco e foi um dos maiores sucessos desse console. O personagem ganhou gerações e chegou revigorado ao nosso tempo com diversas versões. Hoje, é apontado pela Guiness Book como o sexto personagem da história dos games e bem a frente de personagens importantes como a princesa e o Yoshi, ambos do Super Mario.

Veja o comercial da Atari com Pelé e Abdul Jabar e Mário Andretti:

 

Nada parecia mesmo derrubar a empresa. As vendas iam bem e as apostas até o fim dos anos 1970 eram cada vez mais certeiras. Até o Rei Pelé participou de um dos comerciais da empresa. Surge, então, o grande desafio da empresa até aquele momento, a maior aposta de Bushnell. A Atari e a Universal firmaram uma parceria para a produção de um jogo para o filme ?ET, o extraterrestre?. A ideia era genial, pois era uma inédita parceria entre videogames e cinematografia.

Bushnell determinou que o veterano em games, Howard Scott Warshaw desenvolvesse o mais rápido possível uma versão do filme. As equipes passaram noites em claro no desenvolvimento do jogo e o produto chegou às lojas em menos dois meses. Sucesso? Muito pelo contrário.

A sorte se virou contra o fundador da Atari e o produto foi o maior fracasso da indústria de videogames. Diversos problemas de programação e de acabamento foram encontrados no jogo, que encalhou na prateleira e foi devolvido à empresa. A imprensa criticou o trabalho feito com ET e sobrou até mesmo para todo o setor de videogames. Em 1983, houve o chamado ?crash? dos games, evento que praticamente dizimou o videogame do mercado americano. O culpado de tudo isso? O ET do Atari.

O jogo voltou para a empresa e sumiu do estoque da empresa. Perguntada, a empresa se negou a falar sobre o sumiço do jogo, o que alimentou inúmeras teorias conspiratórias. A mais curiosa é aquela que falava na abdução dos milhares de jogos do ET. Somente em 2013 o mistério foi desfeito: mais de 1,3 mil cartuchos foram encontrados em um antigo aterro sanitário em Alamogordo, no estado do Novo México. A descoberta ocorreu em consequência do desdobramento de um documentário ?Atari: Game Over?, a ser lançado.

A Atari não morreu exatamente naquele momento. No ano passado, a empresa entrou com pedido de falência. Alguns falam em uma estratégia da empresa para pulverizar o acionista francês. Fãs defendem a volta da Atari, o que deve acontecer muito em breve no segmento de jogos para celulares e tablets. Enquanto isso, Bushnell viaja pelo mundo contando todas essas histórias e à espera de uma nova mão da sorte desse jogador nato. E quem sabe o fundador da Atari possa dar um fim mais digno a esse ícone dos videogames.

Trailer do documentário ?Atari: Game Over?:

 

*Acompanhe a série especial e seus desdobramentos no Facebook, Twitter e Instagram sob a hashtag #Gamification

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