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ARTIGO: Grandes números enganam, iludem e mentem

ARTIGO: Grandes números enganam, iludem e mentem

Uma multidão de “analistas” e “especialistas” adora gritar números gigantes aos quatro ventos. É bom saber que a maior parte dessa numeralha não quer dizer rigorosamente nada

Pedro Fernando Nery jogou luz sobre a questão, da forma didática de sempre, em sua coluna no Estadão. Mostrou como “especialistas”, “analistas” e instituições em geral utilizam grandes números para difundir ideias e posições que lhes sejam vantajosas ou que confirmem crenças e visões políticas. Os números falam, e, dependendo do caso, mentem ostensivamente.

No referido artigo, o articulista mostrou como os índices de desigualdade no país aumentaram durante os anos Lula, em contraponto à percepção geral que, a partir de uma narrativa bem construída, de que ocorreu justamente o contrário.

Na verdade, a parcela “concentrada pelo 1% mais rico subiu de 25% nos anos FHC (de triste memória, Plano Real à parte) para 30% nos anos Lula e Dilma. O dado mais recente, difundido em prosa e verso, aponta para 28%, mas é de 2015, último ano completo da “administração” Dilma, um primor em termos de caos ruinoso na economia.

Foto Unsplash

Mas a questão é muito pior. Nos mesmos anos Lula, uma infinidade de grandes números procurou mostrar um “potencial de consumo da baixa renda”, em larga medida para justificar a narrativa baseada na “redução da desigualdade”.

Muita gente caiu no conto do “crescimento com renda” e da ascensão da “nova classe média”, aquela que com R$ 2 mil por mês financiava casa própria, viagem, universidade particular, plano de saúde, TV de LED e comia em restaurante todo final de semana.

Uma barbaridade que não tinha respaldo na realidade e que depois ruiu como um castelo de cartas, com uma onda de inadimplência precipitando uma recessão pavorosa. Mas à época, a retórica que fez a alegria da turma “progressista/intelectual/ativista/iluminada/esclarecida” bradava que a “nova classe média” junta representava um potencial de consumo de “R$ 1 trilhão”, que a classe D podia trazer “R$ 600 bilhões” para o mercado, que estávamos vivendo no novo eldorado mundial.

Recentemente, mais um grande número destinado a impressionar os incautos vem sendo divulgado com objetivos nobres, mas frágeis: nossas favelas podem movimentam mais de R$ 119 bilhões por ano (dados da pesquisa “Economia das Favelas – Renda e Consumo nas Favelas Brasileiras”, desenvolvida pelos institutos Data Favela e Locomotiva, divulgada há poucos dias).

Não se nega que nas favelas existam empreendedores, que há renda disponível e que a grande massa de moradores destes espaços metropolitanos (cerca de 13,6 milhões de brasileiros, segundo estimativas. Dados do IBGE, de 10 anos atrás apontam população de pouco mais de 11 milhões).

Mas tais estudos que simplesmente demonstram o poder aquisitivo somado dessa significativa massa de cidadãos não conseguem enfocar algumas questões essenciais: quais as reais prioridades dos moradores das comunidades e favelas urbanas?

Como minimizar a grande fragmentação de expectativas e necessidades dos diferentes cidadãos, considerados individualmente, em relação ao destino a ser dado com os poucos recursos disponível?

De que forma empresas podem prever e fazer frente a comportamentos de consumo mais erráticos do que uniformes? Como lidar com as dificuldades de penetração e coleta de dados qualificados de grandes marcas de produtos e serviços nesses ambientes (por conta de barreiras naturais e sociais)?

Aqui, falamos da quase completa ausência de instituições de Estado em condições funcionais no âmbito das favelas, o preconceito dos vizinhos de áreas urbanas em relação aos costumes, comportamentos e personalidades dos moradores das comunidades, e assim por diante.

Os grandes números tendem a romantizar a situação de carência e de falta de atuação responsável do Estado nas favelas e regiões menos favorecidas. Desviam o foco de que ali o investimento público é necessário para assegurar o desenvolvimento de um mercado formal, para além do boteco, da farmácia, do mercadinho, da escola de samba e do baile funk.

Essas instituições naturalmente cumprem função socialmente relevante, porque permitem aos cidadãos das favelas terem acesso a um conjunto de atividades de consumo mais próximas. Porém, são negócios com pouco ou nenhum potencial de geração de riqueza e desenvolvimento perene e expressivo.

Se por um lado mantém a autenticidade do espaço, por outro, impedem a evolução e a geração de maior riqueza e oportunidades para os moradores.

Infelizmente, o Brasil é um país com assimetrias entre faixas de renda e cidadania. Já comentei que prefiro esta definição à de desigualdade – um conceito desajustado que implica em produzir jogos de soma zero, de resto ineficazes para produzir riqueza e desenvolvimento – e as assimetrias só podem ser reduzidas com maior geração de riqueza e com regras estáveis, justas e equilibradas entre os cidadãos.

Por isso que reformas como a da previdência (felizmente já aprovada) são essenciais, porque reduzem assimetrias entre os formatos de aposentadoria dos cidadãos, uniformizando regras para usufruto de um pecúlio após determinado tempo de contribuição.

Regras tributárias devem seguir o mesmo princípio, assim como o grande número a ser perseguido: um crescimento vigoroso e constante. Um número que só será alcançado mediante muito trabalho e mudança de padrões nos modelos de educação, organização econômica (que deve assumir um viés liberal contundente) e de redução da capacidade de interferência do estado no cotidiano das pessoas. Justamente para que ele possa resgatar sua presença onde faz falta, nas favelas, para que possa formalizar mercados nesses locais.

O fato indiscutível é que o Brasil ainda é um país pobre, com renda média comprimida e sem perspectivas de elevação acelerada. Toda a gritaria em torno da desigualdade e de números de potencial de consumo retiram o foco do real problema, ou seja, da nossa inclinação por romantizar populações carentes e demonizar o que mercados competitivos, abertos e corajosos podem fazer de bom.

Favelas não irão se transformar em bairros modelo da noite para o dia, evidentemente. Porém, destacar o dinheiro movimentado ali só serve para perpetuar uma situação na qual tudo pode continuar como está, já que as pessoas “se viram” e o estado, do alto de sua inépcia, pode continuar a fingir que investir em favela não é com ele.

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