No Brasil, em 1980, um trabalhador produzia, em média, 45% do que produzia um trabalhador norte-americano. O sul-coreano, 22%. Quarenta anos depois, o Brasil caiu para 25%, e a Coreia do Sul passou dos 60%. Para Fernando Schüler, cientista político, professor do Insper e analista do Estadão e do Grupo Bandeirantes, o dado resume o maior problema nacional.
“O grande problema brasileiro chama-se produtividade. Não se trata de uma questão cultural. São decisões que o País toma que levam a esse resultado”, afirma Fernando, no painel ‘Do Brasil real ao Brasil dos sonhos: o que podemos esperar de 2027?’, durante o CONAREC 2026.
Um Brasil de ilhas de excelência
Fernando lembra alguns casos emblemáticos e traz dados que embasam sua análise. “O Brasil tem uma Embraer destacada pela The Economist e um agronegócio que lidera o mercado global de proteína e soja. Mas os contrastes internos são grandes. Santa Catarina tem cerca de 8% de pobreza, enquanto estados do Nordeste chegam a 40%”, lembra.
Outro dado trazido pelo professor: na média, a renda do brasileiro é menos da metade da renda do Uruguai. No ritmo de crescimento chinês, o Brasil levaria 11 anos para alcançar o patamar uruguaio atual. No ritmo brasileiro da última década, seriam 33 anos. “E isso se o Uruguai ficar parado esperando a gente chegar lá”, diz.
O custo de um Estado capturado
Segundo Fernando, o diagnóstico já está feito por instituições como Banco Mundial, OCDE e IMD (International Institute for Management Development, escola de negócios de Lausanne, na Suíça). No ranking de competitividade do IMD, com 70 economias, o Brasil está entre as últimas posições. Em eficiência governamental, só supera a Venezuela.
O peso da máquina pública explica parte do resultado, lembra Fernando. O Judiciário custa 1,5% do PIB, contra uma média global de 0,3% a 0,4%. Cada parlamentar custa 528 vezes a renda média do brasileiro. Na Argentina, segunda colocada, são 228 vezes. Na Europa, 40.
“É um país capturado. Tem lobby, tem elites que capturam o Estado de dentro e de fora da própria máquina e jogam a conta para o contribuinte”, afirma Fernando, que também defende o fim do fundo eleitoral e do horário eleitoral gratuito.
O efeito chega ao investimento, ele diz. Com títulos do Tesouro pagando inflação mais 8%, arriscar capital na economia real perde atratividade. “Por que alguém vai abrir uma startup se pode financiar o Tesouro e ficar em casa?”, questiona. Eele lembra que, em quatro anos, a dívida pública subiu de 71 para 82 pontos do PIB, e o gasto público cresceu mais de 20%, contra 9% nos oito anos anteriores.

Sangue, suor e lágrimas
Fernando também cita um estudo do colega economista, Pedro Fernando Nery, no qual aponta que, sem novas reformas da Previdência e administrativa, e sem ajuste de gastos, a carga tributária do Brasil, pode passar de 34% para 42,8% em 24 anos. O envelhecimento da população também pesa nessa conta. O número de brasileiros com mais de 60 anos deve dobrar em 25 anos.
Por isso, ele espera do próximo governo, seja qual for, uma agenda de reformas. “Faça como o Churchill: sangue, suor e lágrimas. Vamos ter que trabalhar mais e não menos, adiar um pouco a aposentadoria, cortar privilégios e supersalários. O Brasil precisa de reformas que foquem em produtividade.”
A receita que já deu certo
Contudo, Fernando lembra que o caminho está em casos brasileiros bem-sucedidos. O principal é o Marco do Saneamento, que criou regra única para o País, abriu o setor à competição e deu segurança jurídica aos investidores. “Não tem milagre. Não é porque os empresários são bonzinhos. A questão é os incentivos estarem bem alinhados, a regra do jogo estar clara, ter competição e especialização.”
Outro exemplo trazido pelo cientista é do Parque Ibirapuera, onde a concessão levou um restaurante a sair de R$ 40 mil para R$ 2 milhões de faturamento mensal, atraiu outros três estabelecimentos e viabilizou entre R$ 250 milhões e R$ 280 milhões em investimentos, além de R$ 70 milhões em outorga para a prefeitura. “A cidade ganha, quem tem imóvel no entorno ganha, a prefeitura ganha. Competição e especialização. É disso que é feito o ganho de produtividade.”
O mesmo modelo aparece no Hospital do Subúrbio, em Salvador, hospital público de gestão privada e 100% SUS. “O governo não saiu. Ele deu a regra do jogo, estabeleceu as metas e deixou a empresa fazer a gestão na ponta.”
Para Fernando, a lógica para esse Brasil do futuro é a mesma das empresas. “Um executivo observar falhas, preenche lacunas, oferece eficiência e responde melhor ao consumidor. O que um país precisa fazer? Exatamente a mesma coisa.”
Educação, ética e diálogo
A educação é a área em que ele considera mais urgente para essa evolução do país. Fernando lembra que em matemática, o Brasil caiu de 386 pontos no PISA de 2009 para 377 em 2025. Como exemplo, ele cita uma escola salesiana no centro de São Paulo que, em parceria com a prefeitura, atende mais de 500 crianças de baixa renda. “Deixa as escolas serem administradas por quem sabe administrar.”
Nessa agenda, segundo ele, há um parâmetro que determina todo o sucesso: a ética. Para ilustrar sua importância, ele lembra o caso de um ministro da Suprema Corte do Chile destituído pelo Senado em 28 dias, por 43 votos a 0, por relações inadequadas com advogados de partes interessadas na corte. “Problema a gente vai ter sempre. A questão é a capacidade e a velocidade que temos para reagir.”
O último ponto da sua análise, e não menos importante, é a forma de lidar com a polarização. Fernando cita John McCain defendendo Barack Obama diante de uma eleitora em 2008 e o encontro promovido por Obama, em 2009, entre um policial e um professor de Harvard envolvidos em uma prisão controversa. “São exemplos que é possível resolver conflitos no diálogo e, ao mesmo tempo aprender, evoluir. É assim que se faz um grande país”, conclui.
Ou seja, o Brasil tem bons exemplos dentro e fora do País, e já sabe o que funciona. Falta agora fazer isso como uma boa organização faz, com trabalho e em escala.





