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O futuro dos livros não está nas mãos da IA

O futuro dos livros não está nas mãos da IA

Pesquisa aponta que leitores mais jovens não se interessam por livros escritos por robôs; por outro lado, plataformas digitais para publicação disparam na sua preferência
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IMG: Shutter

Dados da pesquisa “Future of Fiction”, divulgada recentemente pela Wattpad e pela Wakefield Research, apontam que os leitores – sobretudo os mais jovens, Gen Z e Millennials – não estão interessados em livros escritos por robôs baseados em Inteligência Artificial (IA).

A Wattpad tem propriedade na afirmação, pois se trata de uma comunidade online que incentiva seus usuários a criar e compartilhar suas próprias histórias impulsionado o movimento de webcomics e webnovels na internet. Desde ficção adolescente até poesia, ação, aventura e outros gêneros, a plataforma criada no Canadá em 2006 reúne mais de 90 milhões de usuários que permanecem mais de 23 bilhões de minutos por mês conectados. A sua maioria (90%) possui idades entre 13 e 40 anos e são escritores amadores.

Identificação com as novas gerações

Voltando à pesquisa, uma das grandes mudanças apontada no estudo ao longo da última década é justamente sobre o conteúdo criado para consumo digital no universo da literatura. Em vez da nova geração buscar apenas versões digitais de obras já publicadas, os webcomics e webnovels disparam no interesse desse público. Identificação com novas ferramentas digitais, maior liberdade de criação e o pertencimento a uma comunidade poderiam ser algumas das características que justificariam essa predileção de autores e leitores pelas webcomics e webnovels. Segundo a pesquisa, 65% da Geração Z e 71% dos Millennials preferem webnovels, e-books e webcomics –  Gen X e Boomer dizem o mesmo, mas representam menos da metade dessa porcentagem.

Nick Uskoski, chefe de conteúdo do Wattpad, disse em comunicado à imprensa que esse cenário tem sim a ver com mudanças na tecnologia, que “afeta como as pessoas consomem ficção digital e ficção de forma mais ampla”. Entretanto, isso não está relacionado à construção desse conteúdo ser realizado por IA. Para Uskoski, trata-se do modelo de conteúdo que o Wattpad ajudou a popularizar: uma maneira fácil e ágil para autores se conectarem com um público certo e monetizarem seu trabalho.

Popularizando a diversidade

Outro ponto relevante, segundo Uskoski, é que os leitores Gen Z e Millennials, além de se envolverem com mais facilidade em formas digitais de ficção, encontram nesses formatos maior diversidade de conteúdos (romance, ficção científica, fantasia e conteúdo LGBTQ+). E a pesquisa corrobora isso: 61% da Geração Z e 70% dos Millennials pesquisados concordam que ebooks, webnovels e webcomics lhes dão mais acesso a quantidade e diversificação sobre conteúdo que dificilmente encontram em livrarias tradicionais e bibliotecas.

Cuidados com IA

É de conhecimento de todos os receios e indignações de autores sobre o potencial de uso da Inteligência Artificial Generativa na produção literária. Mas, voltando à pesquisa “Future of Fiction”, os leitores não estão interessados em ler livros escritos por robôs. Wakefield Research, entrevistou cerca de1000 leitores (+18) e mais de 250 autores nos Estados Unidos, e 90% desse público concorda que novas tecnologias tem o potencial de reformular o futuro da leitura. Porém, 92% prezam para que humanos continuem envolvidos na escrita e produção de livros.

A maioria dos autores pesquisados, por exemplo, relata que não faz uso de IA em seu processo de escrita. Já 43% admitem que a IA pode limitar suas oportunidades de publicação e de negócios. Mas, outros 58% dos autores reconhecem benefícios editoriais no uso da IA, e ainda, 45% avaliam que a IA poderia ajudar em algumas etapas, como por exemplo, na criação da arte de capa. Neste último dado, um claro recado para outros artistas e designers sobre o potencial crescimento da IA no segmento de ilustrações.

IA é afronta à sensibilidade literária?

Nessa jornada da IA no mundo literário observada pela pesquisa “Future of Fiction”, a questão da sensibilidade artística também foi abordada. Para os autores, a IA traz uma ameaça à narrativa autêntica e inclusiva. Dos autores pesquisados, 23% estão preocupados que essa tecnologia possa diminuir a qualidade da leitura, com menos sensibilidade para garantir precisão cultural e respeito em histórias, por exemplo.

Ainda sobre essa qualidade humana, a pesquisa revela que a maioria dos leitores (80%) – de todas as idades – preferem recomendações humanas em vez de uma curadoria baseada em algoritmos (20%). Para as novas gerações, a dica de um livro também é muito importante: Millennials (68%) e Gen Z (72%). O dado corrobora o crescimento de comunidades online como BookTok e BookTube nos últimos anos.

E essa característica está presente também para GenX (64%) e Boomers (70%), mas, essas pessoas dão preferência para dicas de amigos e familiares. Nesse contexto, é interessante notar outro dado da pesquisa: somente 18% da Geração Z citam clubes de livros de celebridades como fontes de informação, e 30% deles acham válido o que influenciadores pensam.

Novas formas de expandir o universo da literatura

Plataformas como o Wattpad ajudam as novas gerações a fomentar essa característica de comunidade em torno da literatura. Isso é saudável e não anula o contato desses jovens com obras tradicionais e impressas mais adiante.

O fato dessas plataformas ajudarem a estimular a paixão pela leitura é maior que outras características que possam diminuí-las.  Além disso, se trata de uma clara oportunidade para novos autores serem conhecidos e monetizarem seu trabalho. Literatura abre portas! Não há nada de errado em ela estar desbravando cada vez mais outros territórios – como o online – em diferentes formas, pelas novas gerações de leitores.

Hoje, o avanço da Inteligência Artificial se alastra em diversos setores e no segmento literário não seria diferente. Para autores, fica a clara importância de ter discernimento de quando ela será valiosa para aquilo que se busca enquanto criador. As novas gerações de leitores já sinalizaram sua preferência.

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