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Design e CX: como salas de cinema podem ir além das telas

Design e CX: como salas de cinema podem ir além das telas

No Vietnã, salas apostam em “experiência social” para atrair Millennials e Geração Z, que buscam, além de filmes, espaços para conversas e interações.
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Desde o surgimento do streaming, houve debates sobre o possível declínio das salas de cinema tradicionais. No entanto, a pandemia de COVID-19 acelerou esse processo, forçando proprietários de cinemas a enfrentarem desafios significativos. Além da evolução tecnológica e do impacto da pandemia, pesquisas recentes apontam para uma tendência ainda mais surpreendente: as novas gerações de consumidores estão cancelando seus serviços de streaming em números crescentes.

Os motivos podem ser os mais variados: desde conteúdos não atrativos, a valores de assinaturas e suas restrições e, claro, à influência das redes sociais. De certa forma, as novas gerações de consumidores estão se aproximando dos conteúdos conhecidos como User Generated Content (UGC), um tipo de conteúdo criado e compartilhado por usuários nas redes sociais.

Nesse cenário, não só a indústria cinematográfica precisa se reinventar como também as salas de cinemas. Proprietários em sintonia com o comportamento das novas gerações estão encontrando um atrativo num ponto bastante óbvio neste mercado, mas ainda negligenciado pela grande maioria: a experiência das próprias salas de cinema.

Visão de negócios de um Millennial

No Vietnã, país que possui indústrias cinematográficas ativas, com produções locais de destaque, de acordo com Jade Kim Nguyen, cofundadora e CEO da empresa de design, Module K, os cinemas vietnamitas prosperaram nos últimos anos em parte porque oferecem uma “experiência social”.

Ela diz que no Vietnã os Millennials e a Geração Z não vão ao cinema apenas para assistir a um filme. Na verdade, vão em grupo para sair, conversar e passar uma noite agradável juntos. Para ela, “os cinemas precisam se tornar destinos”.

Sendo ela mesma uma Millennial, Jade Nguyen sabe do que fala. A Module K venceu 30 outras empresas para projetar um complexo de salas da Beta Cinemas Quang Trung, em Ho Chi Minh City (HCMC, também conhecida como Saigon), o primeiro cinema do grupo vietnamita Beta Group. Minh Bui, fundador e CEO do Beta Group – outro Millennial –, queria que o seu cinema atraísse um público mais jovem como um destino para suas noites. Além disso, ele buscava um design atraente, com apelo às novas gerações e que refletisse também o seu orgulho pelos marcos da antiga Saigon.

Sobre Minh Bui, vale um parágrafo. Este jovem empreendedor, apaixonado por impacto social e criatividade, formou-se na Universidade de Sydney, na Austrália, em 2006. Posteriormente, ganhou uma bolsa de estudos e fez MBA na Harvard Business School. Retornando ao Vietnã em 2014, ele foi atrás de financiadores e fundou a Beta Cinemas, que considera “uma rede de cinemas acessíveis”. Desde então, sua empresa evoluiu para o Beta Group, que engloba diversos negócios, incluindo um instituto que oferece cursos licenciados de educação empresarial em Harvard para estudantes vietnamitas. Minh Bui também é ativo na linha de frente da indústria do entretenimento, e se envolveu em vários projetos de cinema e arte, além de ser conhecido no Vietnã por sua popular canção patriótica “Viet Nam oi”.

Um local “instagramável”

Certamente as salas de cinema do Beta Cinemas, são mais do que um local com café e paredes para posters. O complexo de sete teatros e 1.000 lugares, ocupa 2.000 metros quadrados no térreo de um shopping center. Para atrair os mais jovens e ser tornar uma instalação ideal para seus posts no Instagram, o complexo desperta uma sensação retrô e descolada. Os designers da Module K canalizaram vários marcos arquitetônicos da antiga Saigon e referências de arquitetos famosos, como Marie-Alfred Foulhoux, francês que teve um papel importante no desenvolvimento urbano de Saigon durante o período colonial francês na Indochina.

O estilo “minimalista art-deco/art-nouveau” do local é impregnado por uma paleta de cores ousadas que mistura o contemporâneo e o clássico. O hall de entrada, por exemplo, tem o pé-direito duplo e faz referência ao design do Correio Central da cidade, reconhecido por seus tetos abobadados e arquitetura incomum de influências góticas, renascentistas e francesas.

As influências não param por aí. O interior rosa pastel e branco, lembram a Igreja Tan Dinh, também projetada por Foulhoux, e apelidada de “igreja rosa”. Já os balcões para vendas de ingressos e comidas é uma releitura da profusão de cores das barracas do maior mercado da cidade, o Ben Thahn, que vende de tudo, de comida a tecidos, souvenirs e artesanato.

Após concluir o Beta Cinemas Quang Trung, a empresa Módulo K foi contratada por Minh Bui para projetar o Beta Cinemas em Phú Quốc, uma ilha situada no sul do Vietnã, próxima à fronteira com o Camboja.

Experiência além das telas

Ao que tudo indica, a experiência com o cinema hoje vai muito além das telas. Uma tendência que parece não encontrar espaço no Brasil, seja por falta de visão empresarial ou objetivos de negócios distintos.

Para conquistar as novas gerações de espectadores, a indústria cinematográfica não pode se limitar apenas à criatividade “da tela para dentro”. Contar histórias envolventes já não são mais suficientes para atrair esse público para o cinema. É necessário que as salas de cinema se reinventem, se tornando a porta de entrada e de compartilhamento dessa experiência audiovisual. No Vietnã, o jovem Minh Bui e a Módulo K ilustram bem esse olhar e a necessidade de inovação nas salas de cinema.

*Imagens: Beta Cinemas.

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