A sociedade mostrada em Mad Men já não existe. Mudamos para melhor?

Jeffrey Sharlach, fundador da Jeffrey Group, e Allisson Mann, pesquisadora-chefe da série Mad Men, discutem mudanças sociais e comportamentais

Por: - 2 semanas atrás

Quem já assistiu Mad Men, ou viveu durante o período histórico em que a série acontece, sabe que o mundo, desde a década de 1960, mudou consideravelmente. Essa é uma consideração que, inclusive, uniu Jeffrey Sharlach, fundador da Jeffrey Group, e Allisson Mann, pesquisadora-chefe da série Mad Men, em um debate sobre a transformação do comportamento ao longo das décadas.

Sharlach, que comemora os 25 anos da empresa, percebe que o mundo – o Brasil, especialmente – mudou bastante nas últimas décadas. Ele conheceu o Brasil em 1991 e notou, nessa época, que os preços mudavam todos os dias e cartões de crédito não podiam ser usados.

Claro, o mundo mudou, mas, em muitos casos, as coisas não mudaram tanto. As cozinhas e nosso ritmo de vida parecem similares. O que mudou sensivelmente, foi a comunicação e as formas de se comunicar e transmitir informação. Em termos, o trabalho dentro dessa área ficou mais fácil. Em larga medida, os veículos de comunicação de massa condicionavam as estratégias e agora há muito mais fragmentação, na opinião de Jeffrey. Hoje, todos carregamos uma poderosa ferramenta de comunicação em nossos bolsos.

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As mudanças desde 1960, então, foram ainda maiores. E foi o desafio de representar essa período que Allisson Mann enfrentou: ela conduziu a pesquisa de época que deu base para o desenvolvimento de Mad Men e o realismo absoluto da série em sua abordagem histórica. A pesquisadora se dedicou a pesquisar as mídias da época, fotos, séries e então desenvolveu uma timeline – um calendário para que os atores pudessem entender exatamente o que acontecia em cada dia dos anos abordados no decorrer de cada temporada da série.

“Cada dia de cada episódio correspondia ao dia real da época, de tal maneira que pudéssemos conferir total realismo no enfoque da narrativa”, conta Allisson. Ela consultou diversas fontes e publicitários que trabalharam na época para retratar fielmente como o negócio acontecia de fato.

A produção foi incrivelmente detalhada, com pesquisas acuradas no figurino, nos móveis, nos cenários, nos códigos linguísticos, na forma de trabalhar, para que os atores, quando chegassem ao estúdio para filmar, pudessem realmente migrar para esse ponto da história. “A grande tensão da série era a compreensão de quem se é e o que se faz em um negócio como aquele”, diz.

Para Jeffrey, a década de 60 foi tremendamente tumultuada, com a corrida para a Lua, os assassinatos políticos de Martin Luther King e dos Kennedys (John e Robert), bem como as lutas pelos direitos civis. Como as pessoas normais reagiam diante desses fatos? Esse foi um dos pontos mais consistentes da série, o estranhamento dos personagens diante desses acontecimentos, desse mundo que mudava nos relacionamentos interpessoais, o sexismo vigente, a discriminação.

Outra característica marcante de Mad Men era o comportamento dos personagens, que fumavam e bebiam o dia todo. Nos dias de hoje, isso parece absurdo, mas na época era o comportamento e a cultura padrão. A cultura da bebida fazia parte de uma cultura permissiva em relação a estes hábitos. Será que essa permissividade não se deslocou para a epidemia de obesidade que vemos atualmente? Talvez o ser humano precise ser permissivo em alguma medida para suportar a vida moderna.

O que Mad Men nos ensina é que, apesar do desenvolvimento extraordinário das formas e formatos de comunicação, dos novos tipos e códigos de linguagens, a ansiedade e as questões humanas permanecem vivas.

Nos últimos 50 anos, progressos na forma de encarar direitos civis foram registrados, mas ainda temos menos mulheres no comando de empresas das 500 maiores da Fortune do que CEOs de nome John. Indra Nooyi acaba de renunciar ao posto de CEO da Pepsico e ainda discutimos formas de reduzir o preconceito de gênero ou de cor nas organizações, bem como o acesso a mais oportunidades.

Há mais diversidade nos ambientes de trabalho, mas o ritmo das transformações sociais é mais lento do que a multiplicação das tecnologias de comunicação. Talvez essas mesmas tecnologias possam contribuir justamente para desacelerar a transformação social. Daqui a algumas décadas uma série sobre nossos dias mostrará se avançamos ou não.

Crédito da imagem: portal da AMC