Inteligência Artificial dentro da sua casa

Em novo artigo, Natanael Sena conversa sobre o avanço da Inteligência Artificial com Philip Beesley e com o professor Fabio Mariano

Por: - 3 semanas atrás

A arquitetura pode sentir, cuidar e responder? Pode começar, de formas primitivas, a ganhar vida? Conversei com o empresário Philip Beesley, capa da revista Artificial Life (MIT) e ele acredita que sim.

Confira a edição online da revista Consumidor Moderno!

Com uma abordagem pioneira de estruturas e espaço que repousa no campo emergente da arquitetura responsiva, em sua exposição intitulada Transforming Space, Philip nos convida a imaginar e explorar como a arquitetura pode se parecer no futuro.

Em uma de suas instalações ele combina química e inteligência artificial, abrangendo paisagens sonoras em um ambiente interativo visualmente impressionante que rodeia o público como uma floresta artificial.

Minúsculos microprocessadores fazem parte de uma estrutura imersiva que respira, muda e aprende (Inteligência Artificial) com as pessoas que o cercam. Os movimentos da instalação ocorrem conforme o ambiente onde ele está inserido. Seja som, luz ou presença física, exatamente como seria ao entramos em nossa casa.

As copas delicadas e nuvens altas compostas de malhas leves e formas impressas em 3D são incorporadas com mecanismos responsivos, expandindo mais uma vez os limites do design e como pensamos sobre ele. As formas já não são formas, a maneira de se produzir e pensar em design se reinventa constantemente. Nossa casa será uma extensão de nosso corpo e reagirá conforme nossos movimentos. Não se limitando a ligar ou desligar equipamentos, mas ela saberá a elasticidade e temperatura exata da poltrona que você irá sentar conforme os seus pés tocam o solo caminhando para ela.

Referência no assunto o professor Fabio Mariano, Doutor e Mestre em sociologia do consumo que atua há 25 anos com comportamento do consumidor, estudos etnográficos, consumer insights e tendências, nos dá sua opinião sobre nosso convívio com a Inteligência Artificial.

NS: Fabio, a Inteligência Artifical para muitos brasileiros é algo distante, futurista, porém, de alguma forma, encontramos ela em uma ligação para Call Center, nos mapeamentos que acontecem nas redes sociais ou na interação com aplicativos em nosso smartphone. Cada vez os resultados de nossas buscas são mais assertivos e nossas buscas mais previsiveis. Ou seja, vivemos o futuro que foi retratado em muitos filmes e desenhos de anos atrás. A capacidade de criar do nosso cérebro continuará se reinventando ?

FM: Segundo a neurociência o cérebro humano avança na transformação da sua capacidade, cada vez que ele articula e cria tecnologias.

Inevitavelmente uma tecnologia é para facilitar, seja ela uma cortina, uma mesa, um garfo ou um computador.
Não existe tecnologia que não seja expressão do avanço de capacidade e vantagem do cérebro humano.

NS: O quão próxima está a Inteligência Artificial de nós?

FM: Ela já está entre nós, um exemplo é A.I aplicada nos medicamentos orgânicos, que decodificam o nosso dna e operam diretamente nas nossas células. Os retrovirais que tratam HIV são extremamente inteligentes, eles ainda não conseguem eliminar o vírus mas eles já conseguem deixar o vírus adormecido.

Desde a revolução industrial, operamos com robôs programados digitalmente, hoje essa programação acontece de forma inteligente, automática e responsiva. Mesmo que isso represente 0.01% da operação e capacidade de uma A.I. esse modelo de atuação, já pode ser considerado como uma inteligência artificial, ou seja, a inteligência artificial já faz parte de nossas vidas, inclusive em nossas conversas de whatsapp ela se faz presente.

NS: Nossa forma de se comportar pode se alterar?

FM: Em partes, eu acredito que a gente pode aprimorar e começar articular estrategicamente o nosso comportamento com a A.I – o que é muito bem vindo.

Quanto mais cada indivíduo for sujeito e ator na ação, mais a inteligência artificial vai avançar.

Ela não é um sistema de mão única – é uma via de mão dupla – tudo isso é operado por seres humanos que acompanham os comportamentos de outros seres humanos e aprimoram essas tecnologias.

A mudança do nosso comportamento é muito bem vinda, não quando ficamos reféns e aprisionados por uma vigilância, mas quando a gente começa a aprender e articular com esses dispositivos.

NS: Como lidar com ela ?

FM: A Inteligência Artificial é algo que devemos nos preparar e capacitar para aprender como lidar com ela. Como todo novo aprendizado devemos planejar e estudar.

NS: Existem barreiras culturais que podem impedir o avanço da A.I?

Não! O que existe são resistências. Há culturas que resistem ao avanço da tecnologia.

Em geral o ser humano é muito conservador, não é natural da nossa espécie a transgressão e a inovação. Por isso que precisamos fazer um esforço, uma força física, algo que nos move para a inovação e a criatividade.

Nós seres humanos buscamos a conservação, a manutenção até porque isso facilita com que tenhamos o controle. Nós somos uma resistência para qualquer tecnologia, não só a inteligência artificial.

Isso é visto ao longo da história, a imprensa de Gutenberg (século XV) foi muito crítica por mais de um século, porque aquilo era a perda dos copistas, a reprodução automática da escrita, produção de notícia falsas, etc…

Assim como foram criticados, os automóveis, os aviões, as pílulas anticoncepcionais, desconheço tecnologia que tenha aparecido no mundo e não tenha sido criticada.

Então esse tipo de mentalidade, obviamente, pode gerar uma resistência a A.I, mas não vai impedir o avanço dela.

Ela será desenvolvida pelos cientistas com mindset voltado para esse desenvolvimento, organizações vão adaptar, torná-la comercializável e colocá-la no mercado.

*Philip Beesley é autor e editor de dezesseis livros e procedimentos sobre I.A, esteve por algumas vezes na capa da Artificial Life (MIT), LEONARDO e AD. É Empresário, Arquiteto e Professor.  Suas ações incluem notícias nacionais da CBC, Vogue, WIRED e uma série de palestras do TED.

*Fabio Mariano é Doutor e Mestre em Sociologia do Consumo (Ciências Sociais) pela PUC/SP. MBA em Marketing pela ESPM, também graduado pela mesma instituição em Comunicação Social/Propaganda. Cursou Ciências Sociais na USP. Ministrou curso de Pesquisa Etnográfica aplicada ao Marketing em Berlim e Madrid, de 2010 a 2012. Realizador de mais de 10 filmes etnográficos sobre comportamento do consumidor, focando em subculturas e no cotidiano do consumidor.