O avesso do avesso: Scott Galloway e a era da Não-Inovação

Autor do best-seller “The Four” causa polêmicas durante o Cannes Lions e defende o fim da ditadura das Big Techs. Entenda

Por: - 1 mês atrás

O professor da Stern School of Business da Universidade de Nova York e autor do instigante best-seller The Four, Scott Galloway compartilhou, em um sessão sensacional no Cannes Lions, as suas convicções sobre as quatro maiores empresas de tecnologia e também do mundo com os principais gestores de marketing e estratégias do globo.

Scott fez chamamento coletivo pela sobrevivência de todos e pela procriação. Segundo o professor, as mulheres compreenderão melhor as suas ideias, justamente por terem um instinto de sobrevivência mais apurado e privilegiado.

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Alguns paralelos e desvios de comportamento observados na atuação dessas empresas, as assim chamadas “Big Techs”, Facebook e Google à frente, mostram e atestam a validade e a importância dos argumentos de Scott, colocando em perspectiva até mesmo a sobrevivência dos negócios das empresas e empregos em nossa sociedade.

O Facebook, uma das mais contestadas empresas da história, vive de mídia baseada na captura maliciosa dos dados dos usuários e nega-se peremptoriamente a assumir a sua responsabilidade na questão. O programa de assinaturas e fidelidade da Amazon, o Prime, apresenta mais assinantes do que eleitores votando nas eleições norte-americanas. A Apple e o Google controlam 99% dos sistemas operacionais para celulares no planeta…

De uma forma prática, partindo de uma analogia com o corpo humano, podemos visualizar o Google como sendo o cérebro do corpo; o Facebook, o coração; a Amazon, o intestino e a Apple, o órgão reprodutor. E Scott ainda acrescenta a própria Microsoft no rol das Big 5, inseridas num contexto inédito de poder e dominação de mercados.

Poder financeiro

O valor de mercado dessas empresas combinadas é superior ao PIB da maioria dos países do mundo inteiro. A bem da verdade, apenas EUA e China apresentam PIB maior que essas Big 5. Mesmo as tradicionais empresas automobilísticas, os bancos e as petroleiras perderam a liderança desse ranking. Mark Zuckerberg e sua entourage apresentam uma legião de seguidores maior do que a população da China ou que todos os praticantes do catolicismo.

Enquanto um líder, por pior que seja, costuma exercer a sua autoridade por alguns anos, mesmo em países autocráticos como China e Rússia, Mark poderá permanecer no posto de ‘ditador das redes sociais’ pelos próximos 30 anos! E sem contestação. Afinal, o monopólio do Facebook abrange mais de 94% das chamadas redes sociais e continua crescendo. Ninguém na história da humanidade teve ou provavelmente terá mais poder do que o fundador do Facebook.

Quando estudamos a sua trajetória, veremos quantas vezes o rapaz se ‘desculpou’ pelos malfeitos ou falhas suas e de sua rede social. Desde a faculdade, quando passou a perna literalmente nos irmãos Winklevoss, em Harvard, para montar a sua rede Facebook, até mais recentemente, quando foi depor no Congresso americano, e deixou claro o total desconhecimento dos parlamentares sobre o alcance de suas atividades.

Prestação de contas

Alguém atentou para suas evasivas clássicas? ‘Repita a questão, por favor!’; ‘Trata-se de uma questão muito importante. Vou precisar retornar sobre este tema’. Comparem com o recente incidente com a Starbucks na Filadélfia e a prisão de dois negros. Primeiro, a empresa imediatamente assumiu a responsabilidade, se desculpou com a sociedade, prometeu resolver o assunto, tomou posições firmes e fechou varias lojas no país. O mesmo se repetiu com a Disney em uma situação parecida, envolvendo um Tweet de uma celebridade. E o que fez o Facebook quando estourou o problema de vazamento de milhões de identidades com a Cambridge Analítica? Se omitiu.
O lamentável nisso tudo é a total omissão de todos os atores e agentes da sociedade em relação a eles, comenta Scott.

A questão essencial aqui é: por que para eles tudo é permitido? Por que ninguém se importa com todas as suas violações? Por qual motivo não impusemos a essas empresas os mesmos controles que impusemos a tantas outras grandes empresas na história? Qualquer outra empresa no mundo, na história do capitalismo é multada, julgada, condenada, repreendida e sofre o escrutínio da opinião pública. O Facebook não. É permitido que cada vez mais consumidores se engajam na rede, disponibilizam seus dados, que são devidamente vendidos para o lucro da empresa e os investidores voltam a prestigiar a empresa, cuja ação já se encontra em patamar recorde, semanas após o estouro do escândalo.

Malefícios

Os anunciantes, outras vítimas, continuam com o Zuck. Por outro lado e por questões menos agudas, vários saíram da Fox, por exemplo. Em março, teve início uma campanha para que as pessoas deletem os seus perfis no Facebook. Ela não avançou.

Os malefícios da rede para a vida das pessoas são tangíveis. Com o poder atual da rede, as pessoas dispensam 53% menos tempo socializando de fato com amigos; a depressão aumentou 14% e os pensamentos suicidas aumentaram em 70%. “Durante esse festival, aqui em Cannes, vocês ouvirão deles todos, diversas mentiras”, observou o infatigável Scoot, entre elas:

• Plataforma – “significa que somos uma empresa de mídia, mas não queremos operar livremente e sem prestação de contas”;

• Impossível mudar o modelo – “pela Primeira Emenda Americana, qualquer ação nesse sentido geraria prejuízo ao negócio”;

• Inovação – “uma forma mais elegante de roubo de propriedade intelectual”;

• “Queremos dar voz para aqueles que não são ouvidos”. Traduzindo: “Nós sabemos que estamos errados e não temos nenhuma intenção de fazer qualquer coisa sobre esse assunto”.

A conclusão básica é que quando os erros acontecem e atuam sempre a seu favor, não são erros, mas mentiras!

Impostos para que?

Reparem também na evasão fiscal ocorrida nos países protagonizada pelas Big Techs. Qual percentual de faturamento dessas empresas vai para o fisco? Em muitos casos, não chega a 5%. Somente 5%! Agora mesmo, várias cidades americanas estão se digladiando para ver quem concede maiores vantagens fiscais para a instalação da nova sede da Amazon. Os incentivos estão na casa de dez dígitos. Dez dígitos! A Amazon diz que representa apenas 4% das vendas do varejo americano. Vamos comparar o quanto ela paga de impostos com um Walmart e veremos quem é o coitado da história: nos últimos dez anos, a Amazon recolheu $1 bilhão para o fisco americano, contra $64 bilhões do Walmart.

O Google na Grã Bretanha faturou quase 6 bilhões de libras esterlinas em 2017, porém, pagou a bagatela de 50 milhões de libras ao fisco inglês. E enquanto o Google e o Facebook dominam o mercado de propaganda e vão abrir 26 mil novas vagas em 2018, os grandes grupos globais de propaganda irão demitir 233 mil. É simplesmente um déficit de 207 mil empregos. A menos. Sim, o crescimento colossal desses dois tira o seu emprego.

Concentração

Atualmente, o Google responde por 89% das buscas online. A Amazon responde por 44% do comércio eletrônico nos EUA. A Apple e o Google respondem por 99% do mercado de sistemas operacionais para telefonia móvel. Google e Facebook respondem por 63%do mercado de propaganda online. A Amazon detém 75% do mercado de livros eletrônicos. E o Facebook tem 94% do mercado de redes sociais, com usuários registrados.

Toda essa concentração se reflete no aumento da desigualdade nos EUA, na diminuição da outrora pujante classe média americana e na distribuição de renda. Cada vez mais renda destina-se para menos afortunados.
A bem da verdade, o momento atual é de não-Inovação (“no Innovation”). Basta considerar que o número de startups criadas está em queda desde 1977 (e não em crescimento como quer se fazer crer) e está aliado a um fechamento mais precoce das operações dessas iniciativas. Este é um fenômeno similar também na Europa. Não há inovação. Há apenas uma concentração de iniciativas nas mãos de mesmas empresas… Ou então o que seriam WhatsApp, Instagram, Messeger, YouTube, Amazon Go, Amazon Prime, Amazon Web Services, Amazon Fulfillment, etc?

Scott Galloway pode parecer um Dom Quixote enfrentando moinhos de vento, mas diante de um exame cuidadoso da realidade, seus argumentos mostram que os moinhos rodam lâminas que ferem a competitividade, cortam empregos, geram comportamentos negativos e podem desestabilizar as democracias. As nações e instituições das nações maduras não aprenderam ainda a lidar com o poderio das Big Techs. Serão elas passíveis de regulação? Diante dos fatos, essa é uma discussão necessária.