Conheça as lições de Chelsea Manning, heroína para uns e traidora para outros

A ativista LGBT foi presa após o vazamento de mais de 700 mil documentos secretos do exército americano das guerras do Iraque e do Afeganistão. Entenda as suas ideias e história

Por: - 3 meses atrás

Chelsea é uma traidora. Ao mesmo tempo, Chelsea também é uma heroína. Depende do ponto de vista que você observa e defende. Chelsea também já foi declarada socialmente como Bradley. Bradley vazou 700 mil documentos secretos quando fazia parte do setor de inteligência do exército norte-americano. Saiu da prisão no ano passado, com a transição para Chelsea já realizada. A ativista está no C2, em Montreal (Canadá).

Há um ano e um mês, Chelsea foi libertada. Desde então, ela é uma militante que luta a favor dos direitos humanos, especialmente dos LGBT. Hoje, defende que todos precisam assumir a responsabilidade como parte de uma sociedade. “Tudo o que fazemos, todos os dias, têm um impacto político”, afirma Manning. “Até não fazer nada também é um ato político e as pessoas precisam entender isso.”

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Como uma especialista em tecnologia, também sabe que os desenvolvedores e especialistas precisam assumir um papel além de fazer códigos. Isso ficou no passado. Ela defende que os desenvolvedores lutem por valores éticos na profissão. “Não é porque você pode desenvolver algo, que você fará: isso pode ser errado”, diz Manning. “Você não é um macaco batendo nas teclas.”

Outro fator que a preocupa é a forma indiscriminada que dados podem ser utilizados. Há, segundo ela, perigos de desenvolvimento de códigos racistas e também de outros que podem ser utilizados em guerras. Alguns algoritmos que eram utilizados para a guerra no Iraque, por exemplo, também passaram a ser colocados para buscar consumidores nos Estados Unidos. “Saímos do marketing para o marketing da morte”, diz ela.

Para Manning, a vigilância está aumentando cada vez mais. Estamos sendo observados a cada passo que damos. “Houve uma mudança dramática no estilo de controle do governo, está mais agressivo”, diz.

Entenda a história

Entre os arquivos mais comprometedores estavam a comprovação de que os militares estavam cometendo e encobrindo crimes nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Eles foram parar na mão do Wikileaks por meio de Edward Snowden e depois chegaram a jornalistas de todo o planeta. Foi uma verdadeira bomba. Bradley foi preso e condenado a 35 anos de prisão. Lá, o mundo soube que Bradley, na verdade, sempre se sentiu como Chelsea.

Após sete anos cumprindo pena, Chelsea foi solta. No início do ano passado, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, decidiu libertá-la, pois achava a pena excessiva. Nunca tinha se dado tanto tempo de cadeia para um crime como o dela. A decisão foi criticada por diversos políticos republicanos, que a enxergavam como traidora.

Esse tempo, no entanto, foi o suficiente para ela saber como o sistema prisional está atrasado e que não regenera ninguém. Dos sete anos presa, Manning ficou nove meses na solitária. Não via sequer a luz do dia. “A cadeia é uma instituição tóxica que precisa ser repensada”, afirma.

Por isso, ela luta para que pessoas à margem da sociedade, como a comunidade LGBT, imigrantes e presos, tenham mais oportunidades e sejam mais vistos e respeitados por toda a sociedade. Ela, contudo, faz um alerta. “Há a expectativa de que alguém venha e salve todos dos preconceitos, mas isso não vai acontecer”, diz. “É a nossa responsabilidade individual que vai mudar as coisas.”