A estreita relação entre equilíbrio emocional e sucesso profissional

Especial bem-estar: a estreita relação entre equilíbrio emocional e sucesso profissional

Por: Raisa Covre 5.299 views

Autoconhecimento, meditação e outras iniciativas voltadas ao equilíbrio pessoal entraram na lista de ações de diversas empresas no Brasil. Confira

O ser humano é integral – precisamos cuidar de todo o conjunto (mente + corpo) para manter uma vida saudável pautada em equilíbrio. Como apontamos na primeira parte do Especial Bem-estar, a busca pela felicidade dos colaboradores impulsionou diversas empresas a formatar ações diferenciais, voltadas até mesmo para a saúde física. Uma segunda pauta bastante recorrente nos tempos contemporâneos é a questão da saúde mental, que já entrou na agenda das organizações. O contexto no qual estamos inseridos reforça a importância de preservar a mente sã.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a depressão será o maior motivo de afastamento do trabalho no mundo até 2020. No Brasil, 5,8% da população têm a doença (o maior número de casos da América Latina). De acordo com o Ministério do Trabalho, ansiedade e depressão já são a segunda maior causa de adoecimento ligado à atividade laboral, perdendo apenas para Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e Distúrbio Osteo Muscular Relacionado ao Trabalho (DORT). Além do afastamento, problemas emocionais também têm relação direta com baixa produtividade – e não importa se o problema é com o colaborador ou alguém próximo a ele.

Rita Pellegrino, diretora de RH da TOTVS. A empresa formata diversas ações voltadas à saúde mental

Foi essa constatação que motivou a TOTVS a oferecer apoio psicológico não apenas aos funcionários como também aos seus familiares. Além de organizar uma palestra com um neurocientista sobre o tema (o evento atraiu mais de 600 inscritos), a organização mantém uma médica do trabalho para que as pessoas possam tirar qualquer dúvida relacionada à saúde mental. “Queremos abordar o tema de maneira mais aberta porque as pessoas, no geral, escondem, não querem admitir que estão assim”, explica Rita Pellegrino, diretora de RH da empresa. A TOTVS firmou ainda uma parceria com o Itaú, que dá palestras e dicas relacionadas a finanças pessoais aos seus colaboradores.

Conhece-te a ti mesmo

Quando o assunto é saúde emocional, é importante relembrar a noção de autoconhecimento defendida com afinco pela The School of Life. “Conhecer a si e aos coletivos ajuda não só a evitar conflitos como a ter uma sensação de maior autenticidade com aquilo que se faz”, diz a psicanalista e pesquisadora do Núcleo Diversitas FFLCH/USP, Maria Lúcia Homem. Por essa razão, práticas como as de meditação e mindfulness – técnica que defende a atenção plena por meio de medidas como o controle da respiração e o foco nas atividades – vêm ganhando cada vez mais adeptos. Um estudo publicado pela revista científica britânica Lancet mostra, inclusive, que o mindfulness pode ser uma alternativa ao uso de antidepressivos.

No Google, o programa de atenção plena teve início em 2007 com um empurrão do engenheiro Chade-Meng Tan, um dos primeiros funcionários da gigante de tecnologia e responsável pelo programa global Search Inside Yourself. No Brasil, a iniciativa, que ganhou o nome de gPause, incentiva práticas diárias de meditação e mindfulness para fomentar o autoconhecimento e desenvolver a liderança com mais inteligência emocional.

Sala de meditação na Vivo: a empresa lançou recentemente um app de meditação e também aderiu ao espaço para seus colaboradores

Já a Vivo, que no ano passado lançou um aplicativo de meditação, criou uma sala para seus colaboradores pratiquem a técnica. Segundo Fernando Luciano, diretor de serviços digitais e inovação da empresa, as pessoas voltam para o trabalho mais energizadas. “Queremos incentivar nossos colaboradores a buscar autoconhecimento, tanto pessoal quanto profissional, para viver e valorizar o que importa de verdade”, explica. Outra adepta à meditação e a outras técnicas como arteterapia, biblioterapia e cãoterapia é a 99, da qual falamos no início desta matéria. “A motivação e o engajamento estão totalmente ligados ao nível de entrega de cada colaborador”, diz Sarah Keller, coordenadora de RH da empresa.

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“Temos preocupação com o que é de fato nossa responsabilidade. Não adianta a empresa me dar fruta se o meu chefe me xinga. É incoerente” – Soraya Bahde, da Alelo

Por uma demanda dos próprios colaboradores, a Alelo também promove programas de mindfulness e yoga. Em uma recente pesquisa de clima, os times apontaram o equilíbrio entre vida pessoal e profissional como um dos seus principais desafios. Por isso, trabalhar a noção de atenção plena foi uma alternativa encontrada pela organização para estimular a reflexão sobre a produtividade de cada um, além do controle emocional. Entre os inúmeros benefícios que oferece aos colaboradores, o principal investimento, segundo Soraya Bahde, diretora de Gente & Inovação, é a construção de um ambiente realmente saudável. “Temos preocupação com o que é de fato nossa responsabilidade. Não adianta a empresa me dar fruta se o meu chefe me xinga. É incoerente”, destaca.

O clima organizacional tem alguns atores com responsabilidade direta: as lideranças. A Alelo investe em programas de desenvolvimento de até seis meses para quem está no comando de suas equipes. “A liderança é responsável por estabelecer relações de confiança”, explica Soraya. Mas isso depende, segundo ela, de uma cultura formada por símbolos, comportamentos, processos e sistemas. “Se uma empresa quer que a confiança seja um elo imbatível dentro dos seus valores, precisa refletir de que forma ela é trabalhada”, diz Soraya. Recentemente, a Alelo levou seus líderes a um templo budista para que observassem os símbolos presentes no local e a quais sensações eles remetiam. “Se tem algo que não quero em minha empresa, que rituais posso criar para que as pessoas evitem aquele comportamento?”, reflete a executiva.

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A especialista lembra que, sob o ângulo prático, ações desse gênero não são responsabilidade das empresas. No entanto, a companhia se propõe a trazer essas reflexões – sempre dando aos colaboradores a escolha de participar ou não. “O ser humano é integral. O profissional não estará bem se ele, como ser humano, também não estiver. São coisas que caminham juntas”, afirma Soraya. Esse olhar holístico sobre o indivíduo também norteia as bases do iFood. Além de dispensar o dress code – as pessoas trabalham como se sentem melhores – a empresa dá, a todos os colaboradores, a mesma oportunidade de se candidatar para uma experiência em uma das operações da empresa fora do País. Essa ação é chamada de Culinária Internacional, um programa de intercâmbio de quatro meses que pode acontecer no México, na Colômbia ou na Argentina.

Escritório do iFood, em São Paulo

“Incentivamos muito nossos colaboradores. Aqui eles têm a liberdade de criar e são motivados constantemente a enfrentar novos desafios”, aponta Tiago Luz, chief people officers do iFood. Ele garante que a preocupação com a qualidade de vida está diretamente ligada à alta produtividade da empresa, que cresceu três dígitos nos últimos anos. No Brasil, já são 700 colaboradores, além de mais 200 no restante da América Latina.

Seria exagero creditar às empresas a responsabilidade direta sobre a felicidade dos seus colaboradores. Até porque felicidade é algo que não se terceiriza. Mas o fato é elas podem ter um grande impacto – positivo ou negativo – sobre o bem-estar das pessoas ao criar estratégias que as ajudem a cuidar do corpo, da mente e, claro, da carreira. “As empresas precisam ajudar seus colaboradores a enxergar o propósito no trabalho que desenvolvem”, resume Fernanda Mayol, da McKinsey. E, é claro, ser fiel ao seu próprio propósito. Como dizia Mahatma Gandhi, “felicidade é quando o que você pensa, o que você faz e o que você diz estão em harmonia”.

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