O impacto do bem-estar dos colaboradores na estratégia das empresas

Especial: o impacto do bem-estar dos colaboradores na estratégia das empresas

Por: Raisa Covre 19.072 views

Empresas vêm apostando em iniciativas voltadas ao bem-estar dos seus colaboradores para reduzir a ansiedade e aumentar a motivação. Mas, atenção: dar frutas e pagar a academia não basta. É preciso fazer com que as pessoas se sintam realmente valorizadas

Mesas de pebolim, videogames e patinetes. São esses os itens que os colaboradores da 99, startup brasileira de transporte comprada pela chinesa Didi Chuxing têm à disposição para se entreter nos intervalos do trabalho. Mas não é só isso. A empresa também adota práticas mais “simples” também são valorizadas e levadas a sério, como horário flexível, benefícios, bonificação e programas de treinamento e desenvolvimento. “A motivação e o engajamento estão totalmente ligados ao nível de entrega de cada colaborador”, diz Sarah Keller, coordenadora de RH da empresa. O que pode ser visto como exagero pelos olhares mais céticos compõe um dos valores da organização: “Trabalhe com paixão e diversão”. Junto a este, um lema ainda mais forte: “Seja genuinamente preocupado com as pessoas”.

A correlação é simples: por se tratar de uma empresa de tecnologia, naturalmente questionadora de formatos engessados, a 99 acredita que um ambiente inovador e criativo impacta diretamente em fatores como produtividade, motivação e comprometimento dos colaboradores. E ela tem razão.

 

Confira a edição online da revista Consumidor Moderno!
“Na medida em que os talentos de uma organização são um diferencial estratégico, investir no bem-estar dos colaboradores tem valor tangível óbvio” – Fernanda Mayol, da McKinsey

De acordo com a pesquisa global Winning with talent, realizada pela McKinsey com 1.820 pessoas, colaboradores felizes trazem um melhor desempenho financeiro para as companhias. E isso aumenta em até 65% as chances de sucesso de uma ação em relação aos competidores. “Na medida em que os talentos de uma organização são um diferencial estratégico, investir no bem-estar dos colaboradores tem valor tangível óbvio”, destaca Fernanda Mayol, sócia da Prática de Organizações da McKinsey.

Estudos comprovam que fatores intrínsecos – como um trabalho com propósito, por exemplo – podem motivar mais do que fatores tradicionais extrínsecos, como o dinheiro. E isso tem uma explicação químico-biológica. “Quando as pessoas se sentem à vontade, seus corpos liberam ocitocina”, explica Fernanda. O hormônio é responsável, entre outras coisas, por ajudar a desenvolver o apego e a empatia entre as pessoas, além de diminuir o cortisol (hormônio do estresse). Outro estudo da consultoria mostra que colaboradores com experiência excepcional no nível pessoal demonstram 23% melhor performance individual e colocam 40% mais esforço discricionário em seu trabalho.

Fit cultural

Mas, como bem destacou Cary Cooper, professor do Manchester Business School durante uma conferência da Sodexo sobre qualidade de vida, falar de bem-estar está na moda, mas isso não significa apenas dar maçãs para os funcionários, pagar sua academia e ter mesas de pingue-pongue no escritório. “Bem-estar significa criar a cultura certa onde as pessoas se sintam valorizadas, percebam que a empresa confia nelas e saibam que podem trabalhar com flexibilidade quando isso for possível”, disse Cooper durante o evento sediado em Londres, na Inglaterra, e que contou com a presença da Consumidor Moderno.

Existe um outro ponto crucial para a saúde organizacional: o alinhamento de visão, valores, cultura e estratégia da empresa junto a funcionários, lideranças e investidores. Um levantamento feito pela McKinsey com 300 organizações em todo o mundo durante dez anos mostra que as companhias mais saudáveis geram três vezes mais retorno aos seus acionistas. Ao analisar as práticas adotadas, a consultoria identificou quatro “receitas” comuns: “Fábrica de Líderes” (líderes talentosos e com autonomia em todos os níveis da organização); “Foco no Mercado” (atenção ao mundo externo para trazer inovação em produtos ou serviços e identificar tendências); “Foco em melhoria contínua” (busca por mais qualidade e menos desperdício e ineficiência); e “Foco em conhecimento e talento” (desenvolvimento de vantagens competitivas por meio de uma gestão exemplar de talentos).

É importante observar que todos esses fatores têm um ponto em comum: demandam equipes qualificadas e fortemente alinhadas ao propósito da organização. A consultoria também analisou o cenário nacional comparando empresas brasileiras ao benchmark global de mais de 1.300 organizações em 100 países. E chegou à conclusão de que elas se destacam por sua liderança desafiadora que, por sua vez, instiga os colaboradores a travar uma competição interna saudável, além da clareza sobre o papel de cada cargo na estrutura organizacional. Para Ana Paula Santos, vice-presidente de Pessoas da Vivo, colocar um colaborador em uma função a partir do seu perfil e talento faz com que sua performance se destaque naturalmente. “Isso garante um maior nível de engajamento e, naturalmente, reflete direta e positivamente nos resultados do negócio”, destaca Ana Paula.

Inteligência emocional

Outra competência fundamental para tornar o ambiente de trabalho menos estressante e mais produtivo é saber lidar com um caledoscópio de até 500 experiências emocionais por dia. Professora da School of Life no Brasil e facilitadora de jornadas de aprendizagem, Mônica Barroso enfatiza que estamos nos distanciando de um modelo pós-Revolução Industrial, que acabou transformando o homem em um trabalhador técnico, racional e inundado por noções perfeccionistas. E isso muda completamente a nossa função. “Os indivíduos vão se destacar pelo que as máquinas por enquanto não têm: criatividade, empatia, resiliência, enfim, a subjetividade”, diz Mônica. Ao mesmo tempo, tecnologia e colaboradores precisam conviver em harmonia. “Devemos aliar o melhor de cada uma dessas potências para criar times completos e engajados”, afirma Cássio Azevedo, sócio da AeC. “Só um ambiente com boa gestão, propício à criatividade e que valoriza as pessoas é capaz de fazer isso”, diz.

“Fomos treinados para responder, dizer coisas incríveis, surpreender. E isso nos fez perder a capacidade de ouvir” – Mônica Barroso, da School of Life

No Brasil, a School of Life – escola de origem londrina fundada pelo filósofo suíço Alain de Botton –, se dedica exclusivamente ao desenvolvimento dessa capacidade. Tudo isso com base, principalmente, no autoconhecimento. “As empresas que nos procuram têm discursos muito parecidos”, conta Mônica. “Elas dizem que os colaboradores não aguentam mais capacitações técnicas, precisam se sentir melhores e se desenvolver como pessoas”.

No Brasil, a School of Life formata workshops específicos para cada característica a ser desenvolvida, como adaptabilidade, criatividade, empatia, inovação, empreendedorismo, propósito, autoconsciência e diversos outros conceitos. São 20 no total. Em uma das experiências conduzidas por Mônica para vendedores de uma rede de shoppings, por exemplo, a ideia era trabalhar a empatia em um exercício em dupla no qual a missão dos participantes era simplesmente ouvir e repetir a pequena história que o outro estava contando.

Ao fim, muitos não conseguiam replicar as ideias, o que mostrou para toda a equipe como somos falhos em ouvir as necessidades alheias. “Fomos treinados para responder, dizer coisas incríveis, surpreender. E isso nos fez perder a capacidade de ouvir”, diz. Para uma equipe que lida diretamente com o público, como no caso de vendedores e atendentes, a experiência levantou uma reflexão. Muitas vezes o cliente entra em uma loja simplesmente porque quer conversar. “Dar atenção a essa necessidade pode criar um grande vínculo e até garantir a compra ou mesmo o retorno dessa pessoa”, explica Mônica.

Resultado direto

É o cliente, aliás, que sente na pele o resultado efetivo de ações que visam o desenvolvimento pessoal e o bem-estar dos colaboradores. “Existe uma correlação clara entre a experiência do funcionário e do consumidor”, destaca Fernanda, da McKinsey. O levantamento IBM/Globoforce da consultoria mostra que times com experiência excepcional (ou seja, o poder de tomar decisões, desfrutar confiança e operar em ambientes com processos claros e sem barreiras) geram 20% mais vendas e obtêm 10% maior satisfação do cliente. No Brasil, temos alguns exemplos de empresas que já apostam nessa ideia. A Sky, por exemplo, formata diversas ações – tanto para os colaboradores administrativos como para equipes focadas em atendimento.

Além de disponibilizar espaços de descanso para os operadores (exigidos por lei), a companhia realiza mensalmente encontros para treinamentos e troca de experiências, envia mensagens motivacionais por diversos canais e promove encontros chamados de Arrancada Final para motivar o time a superar as metas. “Profissionais bem treinados e motivados atendem melhor”, explica Roselí Parrella, VP de RH da empresa. Como diversas instituições de grande porte, a Sky realiza pesquisas internas para entender as necessidades do time. Em 2009, por exemplo, diante do interesse dos funcionários por ações voltadas à saúde, ela criou o Programa Vida Leve, com consultoria para práticas de caminhada e ciclismo em parques da cidade de São Paulo), massoterapeutas em todos os escritórios, pausa para descanso e ginástica laboral e serviços de beleza, como manicure e designer de sobrancelhas. Entre 51 opções, os colaboradores podem escolher os 13 que melhor o atendam.

Felicidade física

Assim como a Sky, o Santander investe pesado em iniciativas voltadas à saúde dos colaboradores. Por meio do Be Healthy – um programa global que tem o objetivo de torná-lo uma das companhias mais saudáveis do mundo –, o banco espanhol se baseia em pilares: “Conheça seus índices de saúde”, “Alimente-se bem”, “Movimente-se” e “Equilibre sua mente”. Entre os benefícios estão planos subsidiados com a empresa Gym Pass, que fornece um voucher por dia para a prática de atividades como musculação, crossfit e pilates. “O exercício é ótimo para aliviar o estresse e a mente”, diz Matheus Aoki, analista estratégico do Santander e um dos embaixadores do Be Healthy. O programa já mostra resultados bastante significativos.

Matheus Aoki, analista estratégico do Santander, é um dos embaixadores do programa Be Healthy

Os afastamentos superiores a 15 dias caíram 17,4% e, os de curto prazo, tiveram uma redução de 22,7% entre 2016 e 2017. São investimentos que trazem retorno não só para os funcionários, como também para as empresas. Uma pesquisa feita pela Harvard University School of Public Health descobriu que, para cada dólar gasto em programas de bem-estar, as companhias poupam US$ 3,27 em custos relacionados a cuidados com a saúde e economizam US$ 2,73 em absenteísmo. “Não posso relacionar diretamente nossos resultados financeiros às ações de bem-estar, mas é fato que pessoas saudáveis fazem a diferença”, destaca Vivian Rodrigues, superintendente de RH do banco. “O que eu faço com a minha saúde depende de mim, mas o fato de eu estar em uma organização que valoriza isso influencia que eu mude minha atitude”.

Eleita uma das melhores empresas para trabalhar no Brasil no ano passado segundo o Great Place to Work, a Whirpool também incentiva a prática de exercícios físicos entre os funcionários. Atividades como ginástica laboral, alongamento e o Programa de Ergonomia, que promove uma pausa para o descanso da musculatura, são alguns dos investimentos. “Nosso objetivo é conscientizar os colaboradores sobre a atividade física para manter mente e corpo saudáveis”, afirma Renato Cerri, gerente-geral de manufatura da Unidade Rio Claro da empresa. A companhia aposta no que chama de “winning workplace”, por meio de uma visão que busca dar condições para que as pessoas possam atuar com seu potencial máximo.

 

 

 

Carregando...

Carregando... por favor, aguarde.