Os desafios do setor de saúde no Brasil, na visão de uma startup

Entrevista: os desafios do setor de saúde no Brasil, na visão de uma startup

Por: Raisa Covre 3.704 views

Ana Cláudia Pinto, diretora de produto e soluções digitais da Sharecare no Brasil, conversou com a Consumidor Moderno sobre a relação da saúde com a inovação. Veja

Levantar a bandeira da inovação, muitas vezes, pode ser bastante trabalhoso em setores mais tradicionais da economia. Quando falamos de saúde, por exemplo, é necessário lembrar-se de todos os pormenores que envolvem o setor, questões de cuidado e o número imenso de pessoas impactadas. Por mais que o mundo inovador e disruptivo seja um sonho de todas as empresas, muitas vezes é preciso de um alto senso crítico para entender o que de fato pode ser colocado em prática.

A Sharecare, plataforma de gestão de saúde norte-americana recém-chegada ao Brasil (saiba mais aqui), tem o intuito de desfragmentar a digitalização do setor e oferecer diversos serviços integrados aos usuários de smartphone. De certa forma, seu objetivo nada mais é do que impulsionar a inovação no setor de saúde.

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Quando o app foi lançado no por aqui, a Consumidor Moderno entrevistou Ana Cláudia Pinto, diretora de produto e soluções digitais da Sharecare Brasil. Médica de formação, a executiva também procurou se especializar no mundo administrativo e tem vasta experiência na gestão do setor de saúde. Confira a sua visão sobre o segmento (e sobre os desafios enfrentados pelas empresas desse nicho):

Consumidor Moderno: Quais são os maiores desafios para inovar no setor de seguros de saúde no Brasil?

Ana Cláudia: Eu acredito que é o mindset. Não só nas seguradoras, mas nas operadoras como um todo. Normalmente, o foco das operadoras é redução de custo – e precisa ser. O custo hoje é insustentável, está tornando o negócio inviável. Então, por um lado, eles entendem essa lógica. Por isso, para apostar em uma nova iniciativa, numa inovação ou tecnologia, existe uma barreira. Porque as empresas não têm mais dinheiro disponível para isso mesmo.

É por isso que entendemos que novas tecnologias, como a Sharecare que é gratuita para a população saudável, ajudam demais porque a operadora não tem que pagar por uma iniciativa para uma população que para ela custa pouco. As empresas têm um pool de pessoas, nesse pool tem pessoas saudáveis e na ponta tem os casos mais graves, com as quais o gasto é maior. Com a população saudável elas não gastam até que em algum momento apareça alguma doença. E é muito difícil investir ou ter a vontade de investir numa população que é, por enquanto, saudável.

CM: O custo acaba sendo a grande preocupação?

Ana Cláudia: Existem outras tecnologias, inovações, que ajudam essa questão do custo. Por exemplo, modelagem preditiva. Se eu sou capaz de prever quem vai ter custo no ano seguinte eu posso fazer uma ação focada nessa população. Essas são tecnologias que estão ficando cada vez mais disponíveis e isso ajuda na redução de custos. Porque se eu tenho uma verba para monitorar 100 pessoas e monitorar, mesmo com doença crônica, por exemplo, eu vou ter um resultado. Se eu monitorar aquelas mesmas 100 pessoas, mas numa população que eu sei que tem alto risco para alto custo, no ano seguinte a minha chance de sucesso em custos vai ser maior.

Alguns dispositivos focados em pacientes com diabetes, por exemplo, que não só medem a glicose, mas ajudam a calcular quanto de insulina você tem que dar e quanto você pode consumir de carboidrato. É praticamente um computador. Tem uma série de iniciativas, mas a maior barreira é que hoje existe um problema de financiamento. Como vou investir num lugar que me traga mais retorno ou me alivie mais as contas que já estão no pescoço?

CM: A medicina preventiva é um caminho?

Ana Cláudia: Ela sempre é um caminho, mas, se eu sou uma determinada operadora na qual as pessoas ficam em média três anos, investir em prevenção pode não ser minha principal necessidade de investimento. Se eu tenho uma autogestão, na qual aquela população vai ser sua para o resto da vida, é muito mais fácil investir em prevenção. Se eu sou uma operadora, com uma pessoa que fica só três anos comigo, se eu investir em prevenção talvez falte capital para eu investir em outras coisas que eu entendo que talvez sejam prioritárias na minha visão de redução de risco e custo. Depende muito da característica de cada operadora.

Se existisse, por exemplo, uma empresa focada em uma população que faz atendimento telefônico, com aquele perfil de população jovem, que não tem doença crônica. Nesse caso o que pode acontecer é engravidar, ter riscos de obesidade, etc, então a necessidade é tratar os riscos específicos daquela população. Fazer outros tipos de trabalhos preventivos para atender a necessidade e manter de pé o seu negócio.

CM: Que oportunidades a Sharecare enxergou para vir ao Brasil?

Ana Cláudia: Eu acho que o Brasil tem uma importância muito grande na estratégia da empresa como um todo. Aqui a gente tem uma massa de utilizadores de smartphone muito grande, um mercado que por si só tem uma tendência maior de adesão. O brasileiro é muito afeito a tecnologia e a grande maioria das pessoas tem smartphone. Não necessariamente tem recurso de internet em casa, mas tem smartphone. Para a estratégia da empresa isso é muito importante, até para entender, num país como o Brasil onde existe essa boa aceitação da tecnologia, como as pessoas vão se comportar, como o app vai se disseminar.

CM: A partir da ideia de mapeamento da saúde da população, vocês têm a intenção de divulgar pesquisas?

Ana Cláudia: Sem dúvida e já estamos contribuindo com algumas universidades. Temos um trabalho em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e vamos publicar em breve análises de, por exemplo, como a saúde emocional impacta nas doenças crônicas. E isso com um dado brasileiro porque geralmente esse tipo de estudo só tem dado de países de fora. Vamos fazer uma séria de publicações que vão poder ajudar no desenvolvimento da saúde no Brasil.

Fora que o aplicativo em si é muito democrático. As pessoas podem ter acesso a conhecimentos de saúde que antes não tinham, isso é fantástico. Uma das coisas que me faz ter orgulho de trabalhar com isso é essa característica. A gente vai poder levar informação para muita gente que não tem plano de saúde nenhum, que não tem nada. É uma séria de situações que buscamos que vai ajudar a gente a desenhar talvez um novo cenário de saúde. Além de dar informações para as pessoas, tornar isso democrático, vamos permitir que uma determinada população veja a foto da sua saúde. Isso é gestão de saúde populacional.

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