Liderança: um líder precisa se posicionar socialmente, diz CEO da Bayer

Especial Liderança: o CEO precisa se posicionar em temas sociais, diz presidente da Bayer

Por: André Jankavski 5.465 views

O executivo Theo van der Loo, que comanda a Bayer há sete anos, vem se destacando por empunhar bandeiras sociais - e acha isso essencial para uma liderança

O executivo Theo van der Loo teria tudo para não buscar mais preocupações para a sua vida. Ele comanda, desde 2011, a subsidiária brasileira da Bayer, uma das maiores empresas do ramo farmacêutico e químico do mundo. Ou seja, responsabilidade e pressão não faltam durante a rotina de van der Loo. Ele, no entanto, decidiu ir além das planilhas, dos balanços trimestrais e das intermináveis assinaturas de documentos.

Há alguns anos, o CEO passou a se destacar por assuntos bem diferentes da última linha do balanço ou dos dividendos para acionistas. Ele começou a empunhar bandeiras sociais, em especial a respeito da luta contra o preconceito racial. “Metade da população brasileira é afrodescendente e você não enxerga essa distribuição nas empresas”, afirma ele. “É um racismo velado.”

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Na entrevista a seguir, van der Loo fala sobre como ele acredita que os CEOs precisam se posicionar a respeito de temas sociais, além de como ele enxerga o líder do futuro.

Ainda é raro ver altos executivos empunhando bandeiras, especialmente a respeito de temas sociais. O senhor, com posicionamentos sobre racismo e direitos LGBT, por exemplo, é uma das raras exceções. Como você enxerga isso?

Primeiro de tudo, o protagonismo dessas lutas sempre deve ser dos negros e da comunidade LGBT. Eu só tento fazer a minha parte. Existem coisas que eu posso falar como CEO branco e há coisas que só os negros podem defender. Trata-se de uma parceria e estou aprendendo na prática como posso ajudar. Infelizmente, quando um afrodescendente coloca uma reclamação na internet, algumas pessoas pouco dão bola. Mas pelo fato de ter uma pessoa branca e ocupando um cargo alto falando sobre o assunto, isso chama a atenção. Desta forma, acredito que o meu papel é nessa colaboração.

E como negros se posicionaram após as suas declarações?

Posso dizer que a maioria das pessoas negras me pediram para não parar de me posicionar. As não negras também me apoiaram. O complicado, como disse, é que quando é um negro falando, muitos levam como “mimimi”.

Por que o senhor começou a se posicionar desta maneira?

Meus pais são holandeses e sempre acompanhei muito de perto os valores deles. E sempre foi me ensinado a tratar todos bem, sem exceções. Quando eu fui subindo na minha carreira dentro da Bayer, percebi que teria mais poder para ajudar nessas mudanças. Com isso, tentei passar esses meus ensinamentos para os que trabalham ao meu lado. Eu dependo muito das pessoas para isso, pois sozinho não é possível fazer nada.

E como o senhor enxerga a resistência de muitos CEOs de posicionarem a respeito. Como os seus pares veem o seu exemplo?

Houve algumas críticas de colegas, sim. Muitos falavam que esse não era o meu papel. Mas a grande maioria é simpatizante a esses temas, só que não sabe como se posicionar. Quando fiz a minha primeira postagem sobre racismo no LinkedIn, houve uma repercussão maior do que eu mesmo esperava. Mas já que eu estava no meio daquilo, decidi não tirar a mensagem. Percebi que daria para ajudar a dar atenção a esse problema.

O tema que o sr. mais se posiciona é quanto a igualdade racial. Por quê?

A inclusão racial é algo mais local. Metade da população brasileira é afrodescendente e você não enxerga essa distribuição na empresa. É um racismo velado. E essas pessoas não querem favores, mas apenas oportunidades. Ninguém quer que invente um emprego para negros ou que tire brancos para negros serem contratados. É só, quando houver mais vagas, ter candidatos negros e assegurar que não haverá preconceito na seleção.

E como a Bayer está posicionada nessa mudança?

No meu caso específico, tento estimular isso há muito tempo. No final dos anos 1980, trouxemos mulheres para equipes de vendas. A primeira representante negra da área, inclusive, foi contratada em 2004. Depois de dois anos, saí da subsidiária brasileira para trabalhar em outros países e retornei em 2011. Aí eu notei que não tinha mudado praticamente nada. Ela continuava sendo uma das poucas negras. Pensei que se eu não fizesse nada, não iria acontecer nada.

Daí a importância do CEO se posicionar?

Se o CEO não se envolver um pouco mais, não terão mudanças. A tendência de tudo ficar como está permanecerá. Os presidentes precisam assumir isso. A mudança é muito lenta. Se não fosse, essa entrevista nem estaria sendo feita. Cobro os gestores para que eles participem dessa jornada. E percebi que é muito mais difícil do que eu imaginava. Hoje, temos diversos comitês de diversidade, o qual também faço parte.

Críticos afirmam que esse tipo de posicionamento divide a empresa. Qual é a sua opinião?

A Bayer não é uma ilha perfeita. O que se trata na empresa é o respeito. Temos que respeitar as pessoas e as opiniões. A questão é não virar nada agressivo. É necessário um reconhecimento de que a empresa não é perfeita, mas que busca meios para melhorar. E eu tenho percebido que a grande maioria dos colaboradores estão engajados e apoiam as causas. Há várias pessoas de diferentes áreas da empresa que, antes dos comitês, não se conheciam. E, além disso, temos muitos jovens que sequer trabalham conosco, mas já têm essa vontade. Logo, conseguimos atrair novos talentos.

Você acredita que, em um futuro próximo, nos depararemos com mais negros, mulheres e homossexuais ocupando posições de CEOs ou ainda considera algo distante?

Tenho muita esperança de que isso vai mudar, mas não será na velocidade que eu gostaria de ver. A consciência sobre o assunto, no entanto, está ficando maior. Precisamos continuar na luta. Já não vejo tanta resistência, mas falta a atitude de ir lá fazer. Em momentos de crise econômica, isso pode ficar em segundo plano. Afinal, é necessário investir para fazer acontecer. Essa atitude, porém, precisa mudar. Diversidade é algo tão importante quanto o compliance. Para isso, o CEO precisa estar mais do que envolvido, mas comprometido.

Como as gerações mais novas estão influenciando este novo pensamento?

É uma geração menos calada. Já estamos sentindo isso. Estão em busca de uma sociedade mais justa e correta.

A Bayer está participando de um processo de fusão com a Monsanto. Como o CEO precisa agir para que os funcionários toquem a vida sem se preocuparem com demissões ou futuros problemas?

É uma boa pergunta. Em fusões pode haver excesso de pessoas em alguns cargos, de fato. É fundamental tratar as pessoas com respeito. Há exemplos de pessoas que querem sair da empresa, se aposentar, e de outras que querem buscar outras oportunidades. Mas o fator principal é tratar bem, independentemente da decisão. É o lado emocional de uma fusão. Os produtos e o faturamento não têm sentimentos. Podemos cometer erros em relação à nova estrutura de uma empresa, mas não pode se comprometer as pessoas. Uma integração de duas empresas é algo muito dinâmico, pois você gera uma nova companhia. É preciso criar um novo ambiente de trabalho, uma nova filosofia e isso é fundamental para o sucesso do negócio. E também é algo que me dedica muito.

Como o senhor enxerga o perfil do CEO do futuro?

Não tenho dúvida que os líderes precisarão ouvir mais. Quando eu me formei, no final da década de 1970, a questão principal era eficiência, gerar resultado e lucro. Todo o lado social era praticamente um tabu. Mostrar empatia era algo que não existia. Hoje, no entanto, se você não falar sobre isso, você está fora. É isso o que os empregados querem ouvir do líder. Sem resultado não tem empresa, é óbvio. Mas não pode ser só isso. É algo irreversível e até investidores estão procurando empresas com esses propósitos.

E como o senhor gostaria de enxergar o cargo de CEO no futuro? Com quais responsabilidades?

E gostaria que mais CEOs se engajassem com temas sociais. Para isso, eles precisam conversar com os comitês de diversidade de sua empresa. Foi assim que eu entendi as causas pelos quais eles lutam. E foi só dessa forma que eu vi se o que eu estava fazendo era certo ou errado. Também gostaria que esses executivos olhassem a sua volta quando viajassem ao Brasil, em congressos ou reuniões. Vejam onde estão os negros. Normalmente, eles estarão ocupando posições que os escravos faziam antigamente. Por isso, o CEO tem que fazer parte do movimento. Não basta estar na foto, mas é necessário participar do filme inteiro.

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