Especial Redes Sociais: Para onde vai o Facebook?

Especial: Para onde vai o Facebook?

Por: André Jankavski 24.978 views

Rede social enfrenta um paradoxo: ao mesmo tempo em que o seu lucro dispara, a sua imagem nunca esteve tão abalada. Notícias falsas, polarização e até mesmo problemas de saúde mental ameaçam o futuro da rede de Mark Zuckerberg

Quem visita a sede do Facebook na região de Palo Alto, na Califórnia, logo se depara com uma placa ostentando o imponente símbolo do “like”. Atrás do polegar levantado está o logo de uma empresa que ocupou toda aquela estrutura de salas e prédios por cerca de 30 anos: a Sun Microsystems. A história é a seguinte: a bolha da internet, ocorrida do meio para o final da década de 90, catapultou diversas empresas de tecnologia para o Olimpo de joias do mercado financeiro norte-americano. As ações dessas companhias batiam recordes atrás de recordes.

Mark Zuckerberg enfrenta algo que sempre negou existir: a falta de credibilidade do Facebook

Uma das estrelas dessa época foi a própria Sun Microsystems, que nasceu nos corredores da icônica Universidade Stanford, na Califórnia, e rapidamente se tornou uma das maiores empresas de servidores do mundo. Aí o milênio virou, a bolha estourou e a companhia passou a operar no prejuízo. Até que, em 2009, a Oracle aceitou pagar US$ 7,4 bilhões por toda a operação. Dois anos após a venda, Zuckerberg levou a sede do Facebook para o antigo escritório da Sun. Mudou quase tudo, mas decidiu deixar a antiga placa para dar um aviso a todos os seus funcionários: a empresa que não souber se adaptar aos novos tempos pode morrer rapidamente.

Ironicamente, nos últimos dois anos, Zuckerberg deve estar refletindo muito sobre a placa da Sun. Não pelos resultados financeiros, é bem verdade. As finanças do Facebook vão muito bem, obrigado. Em 2017, a empresa que controla redes sociais como o próprio Facebook, além do Instagram e do WhatsApp, faturou vultosos US$ 39,9 bilhões. Deste valor, US$ 15,9 bilhões referem-se apenas ao lucro líquido. Para completar, o seu valor de mercado chega aos US$ 500 bilhões.

Apesar de tantos dados positivos, o Facebook, que tem 25% da população global utilizando sua ferramenta, passa por uma grande crise de imagem. Compartilhamento de notícias falsas, escândalos de envolvimento de agentes russos na eleição americana por meio da rede social, cobrança pública por uma regulação da plataforma e até uma certa ojeriza da nova geração ao Facebook vêm deixando analistas e especialistas preocupados.

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A consultoria americana CB Insights fez uma pesquisa com uma pergunta simples: ela queria saber qual empresa de tecnologia será vista de maneira negativa pela sociedade daqui a dez anos. Cerca de 59% das 4.200 pessoas ouvidas apontaram o Facebook na liderança deste pouco agradável ranking. Na sequência aparecem Amazon (11%), Google (4%), Apple (3%) e Microsoft (2%). Os 22% restantes afirmaram que todas serão reconhecidas positivamente.

O tal do “Fakebook”

Já estamos acostumados ao fato de que as pessoas não são totalmente honestas nas redes sociais. Em meio a “textões” e fotos em lugares paradisíacos, os usuários sempre tentam mostrar o melhor de si. Até aí, tudo bem. O problema ficava restrito aos indivíduos. A questão ficou séria, contudo, quando houve a proliferação de notícias falsas durante as eleições de 2016, nos Estados Unidos.

Na época, a disputa entre a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump era vista como uma barbada. No dia 8 de novembro, data da eleição, todas as pesquisas apontavam que Hillary seria a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente dos EUA. Daí, veio a surpresa. A vitória de Trump deixou o país dividido.

Porém, todos começaram a questionar como tantos prognósticos poderiam estar errados. Falha dos institutos de pesquisa? Soberba dos democratas? Ambos os fatores, é bem verdade, contribuíram. Mas as notícias falsas, que passaram a pipocar de maneira cada vez mais frequente nas redes sociais, também tiveram a sua grande contribuição.

Mark Zuckerberg, no entanto, não aceitou que aquilo realmente tivesse acontecido. “É uma ideia maluca”, disse ele quando questionado se as “fake news” teriam influenciado a eleição. Em setembro do ano passado, porém, tudo mudou. O Comitê de Justiça do Congresso americano convocou o Facebook para comentar as acusações a respeito das notícias falsas: elas não só teriam influenciado a eleição como teriam sido impulsionadas por espiões russos, interessados na vitória de Trump.

“Estamos assistindo aos efeitos da polarização causados pelos algoritmos e a influência russa é consequência disso”, disse Shanto Iyengar, professor da Universidade Stanford, em entrevista à Consumidor Moderno. “As nossas redes são formadas por pessoas com gostos políticos e visões similares, que o Facebook estimula. Por isso, é necessária uma discussão séria a respeito desse problema”.

Mais tarde, o Facebook admitiu que sua plataforma foi utilizada para esse fim. E não foi só isso. Assumiu também que 126 milhões de pessoas foram impactadas por conteúdos de agentes russos. Redes como Twitter e YouTube também tiveram o mesmo tipo de problema. Entre as reportagens mentirosas, estavam a que Hillary Clinton vendia armas para o Estado Islâmico e que urnas com votos fraudulentos para ela foram encontrados no Estado de Ohio. O que aconteceu? Essas redes ignoraram boa parte do conteúdo, não assumindo as responsabilidades.

De acordo com o futurista Alex Salkever, as companhias não se mexeram com receio de perder usuários nas plataformas. “Não é tão simples controlar esses problemas, mas certamente era possível ter feito um trabalho melhor”, diz Salkever (veja a entrevista completa clicando aqui). “Mas eu acredito que elas decidiram não acordar essas questões porque poderia afetar o seu número de usuários, o que traria uma visão negativa para os investidores de Wall Street”.

Por trás disso, também estava uma série de mecanismos que permitia que autores de notícias falsas lucrassem com a proliferação delas. Tudo se baseava em cliques nas páginas, que continham dezenas de anúncios. Para tentar resolver esse tipo de situação, o Facebook vinha recorrentemente mudando os seus algoritmos. A ideia foi dar mais espaço às publicações de familiares e amigos em detrimento de mensagens de empresas. O movimento mais recente foi anunciado em janeiro, desapontando parte dos anunciantes.

O Facebook se defende. “Estamos o tempo todo aprendendo e recebendo feedback das pessoas que estão no Facebook, e a mudança recente no feed de notícias para priorizar amigos e família é resultado disso”, disse o Facebook em resposta à reportagem. “As pessoas nos disseram que o Facebook tinha se tornado um espaço mais sobre conteúdos públicos de páginas do que sobre amigos e família e a essência do Facebook é, desde sua criação, sobre conectar e aproximar pessoas”.

No fim de março, outro fator mexeu com a cabeça de Zuckerberg – e também com o seu bolso. Um cientista de computação canadense fez a empresa perder mais de US$ 45 bilhões em valor de mercado em dois dias. Isso porque Christopher Wylie, que trabalhava para a consultoria Cambridge Analytica, responsável por campanhas de Donald Trump à presidência e a favor do Brexit, decidiu falar as estratégias de como eles conseguiam dados sigilosos dos usuários. Foi algo bem simples.

Wylie criou um aplicativo na rede social que fazia uma série de questionamentos a respeito do comportamento da pessoa e dava alguns centavos a ela por isso. O detalhe fundamental foi o pedido de permissão para que o aplicativo tivesse acesso à informação do respondente, assim como de todos os seus amigos. Acredite: isso era possível em 2014, época da criação do app. Logo, 320 mil respondentes, com uma média de 160 amigos cada, criaram uma base de 51 milhões de perfis em um banco de dados.

A partir daí, a consultoria passou a fazer uma série de correlações, sendo algumas curiosas. Por exemplo: pessoas que curtiram a página “Eu odeio Israel” tinham a tendência de serem fãs das marcas Nike e KitKat. Com esses dados, que só o Facebook teria a capacidade de fornecer, a Cambridge passou a entender aqueles americanos que teriam uma tendência de votar em Trump e começou a atacar diretamente suas fraquezas, da mesma forma que fez no Reino Unido.

Vídeos mostrando a forma de manipulação da Cambridge também passaram a ser veículados na imprensa. As revelações enfureceram políticos. “Alguém precisa se responsabilizar por isso”, disse, em comunicado, o deputado britânico Damian Collins. “Está na hora de Mark Zuckerberg parar de se esconder atrás de sua página no Facebook.” Políticos querem convocar Zuckerberg para prestar contas das acusações.

A forma de o Facebook se defender foi utilizar a desculpa de que todas as pessoas escolheram compartilhar os seus dados. “Não foi um vazamento, as pessoas aceitaram fornecer os seus dados”, disse Andrew Bosworth, um dos vice-presidentes do Facebook. Detalhe: essa defesa foi feita no… Twitter. Bosworth também anunciou na plataforma rival que a Cambridge foi suspensa do Facebook.

Nomes como Elon Musk (foto acima), da Tesla, e Tim Cook, da Apple, se posicionaram contra o Facebook (Créd: Shutterstock)

Outro que se posicionou na campanha #deleteFacebook, que passou a tomar conta das redes sociais, foi Brian Acton, um dos fundadores do WhatsApp. Por último, nomes de gigantes da tecnologia, como Elon Musk, da Tesla, também se colocaram contra a rede e tiraram os seus perfis da rede de Mark Zuckerberg. Tim Cook, CEO da Apple, foi além: é necessário uma regulação. As multas contra o Facebook podem chegar a US$ 1 trilhão.

Por aqui no Brasil, a Cambridge Analytica, que tem parceria com a consultoria A Ponte, continua tendo acesso às ferramentas da rede social. Pelo menos, por enquanto. O responsável pela parceria é André Torretta, que admitiu ter se assustado com a notícia e a repercussão. “Tudo continua na mesma, mas estou de olho no que vai acontecer”, diz Torretta. Para as eleições de 2018, a consultoria já foi contratada por três pré-candidatos a governos estaduais em diferentes Estados.

Pressão corporativa

De qualquer forma, o Facebook começou a ser criticado abertamente por diversas empresas. Afinal, conteúdos de procedência duvidosa, com seus títulos e mensagens apelativas, passaram a ter tanto (ou até mais) espaço quanto postagens das empresas – que muitas vezes pagavam por aquilo. O publicitário Eden Wiedemann, CEO da Wololo e consultor de marketing, exprime bem essa frustração. Segundo ele, quando o Facebook entrou no Brasil, há sete anos, tudo parecia lindo.

“Eles vendiam um cenário no qual, se investíssemos para criar uma base de fãs, teríamos uma audiência nativa quase que de maneira eterna”, afirma. Na época, a companhia dizia que 25% da base de fãs sempre seria impactada por mensagens das empresas. Mas, com todas as recentes mudanças de algoritmos, publicitários estimam que esse número, agora, não chegue nem a 1%. Ou seja, se uma empresa tem a base de um milhão de usuários em sua página, pode considerar uma audiência de apenas 10.000 pessoas. Isso sem impulsionar a postagem com verbas, é claro.

Esse foi um dos motivos que levaram a Folha de S.Paulo, um dos maiores jornais brasileiros na plataforma, a deixar de publicar as suas reportagens no Facebook. No dia 8 de fevereiro, o veículo se pronunciou contra a mudança dos algoritmos, afirmando que enquanto as notícias de publicações respeitadas estavam com menor alcance, as fake news continuavam se proliferando. Uma análise feita pelo jornal mostrou que, de outubro de 2016 a janeiro de 2017, a taxa de interações em páginas de notícias falsas aumentou 61,8%, enquanto as de jornalismo profissional caíram 17% no mesmo período.

Nesta mesma toada, em janeiro, o magnata da comunicação Rupert Murdoch, dono da Fox News, afirmou que o esforço de redes como Google e Facebook não deveria ficar somente na luta contra as fake news. Para ele, ambos deveriam pagar taxas de veiculação de conteúdo, assim como empresas de TV a cabo operam. “Os publishers estão gerando valor e ampliando a integridade do Facebook sem serem recompensados de forma adequada”, disse Murdoch em comunicado.

Apesar do barulho da retirada da Folha, que foi noticiada por diversos veículos ao redor do mundo (na maioria das vezes em tom de aprovação), o Facebook sentiu uma verdadeira pressão quando grandes conglomerados começaram a questionar se valia realmente a pena investir na plataforma.

Ainda em 2016, o executivo Marc Pritchard, diretor de marketing da P&G, disse ao jornal americano The Wall Street Journal que os investimentos no Facebook não estavam compensando. A relação custo-benefício estava prejudicada.

“Vamos investir em publicidade que nos renda o máximo alcance e tenha maior precisão”, afirmou Pritchard. Detalhe: a P&G é a maior anunciante do mundo, segundo ranking da consultoria AdAge.

A pancada mais forte, contudo, veio da Unilever. A multinacional anglo-holandesa, quinta maior anunciante global, criticou o mundo polarizado criado pelas redes a partir dos seus algoritmos. “Mídias sociais deveriam construir responsabilidade social”, afirmou Keith Weed, CMO da Unilever durante o IAB Annual Leadership Meeting.

“Unilever não investirá em plataformas ou ambientes que não protejam nossas crianças ou que criem divisões na sociedade, além de promover ódio ou raiva. Vamos priorizar o investimento em plataformas responsáveis em criar um ambiente positivo na sociedade”.

No Brasil, poucas empresas tiveram posicionamento tão radical quanto Folha e Unilever. Ao contrário. A maioria ainda coloca o Facebook como uma plataforma estratégica para a construção de suas marcas. Ao mesmo tempo em que o discurso oficial é de parceria, algumas companhias diminuíram – e muito – o número de postagens em suas páginas.

A varejista eletrônica Netshoes, por exemplo, chegou a ficar do dia 20 de janeiro até 24 de fevereiro sem colocar uma única mensagem. Até essa data, somente duas postagens haviam sido feitas em 2018. O caso da Whirlpool, chama ainda mais a atenção: a última mensagem publicada ocorreu no início de dezembro do ano passado. Procuradas, ambas as empresas afirmam que o Facebook continua sendo um meio importante de contato com os consumidores.

Executivos de companhias como Gol, Fleury, Sonae Sierra e CPFL também foram questionados a respeito de suas estratégias digitais na plataforma. E todos foram unânimes ao dizer que, mesmo com todas as mudanças, continua valendo a pena participar dela. Ao mesmo tempo, há a preocupação com proliferação de conteúdo falso.

“Precisamos achar um ponto de equilíbrio, pois hoje a gestão de reputação é algo muito crítico”, afirma William Malfatti, diretor de marketing do Grupo Fleury. “Isso pode se tornar uma ameaça quando não se tem uma solidez na precisão da informação, o que pode destruir a imagem de uma empresa”. Um dos exemplos desse movimento pode ser visto na estratégia do Bank of America, um dos principais dos EUA. A instituição financeira decidiu criar o cargo “oficial de segurança da marca” para evitar que anúncios do banco apareçam em páginas falsas.

Regulação é o caminho?

Com o mundo tão polarizado e com empresas como Facebook e Google tendo tanto poder e influência nas decisões dessas pessoas, muitos estão se questionando se não é necessária uma regulação. Juntas, as duas empresas dominam 60% de toda a verba publicitária do planeta. E outra questão tem incomodado participantes do mercado: eles pagam menos impostos do que empresas tradicionais.

Um levantamento feito pelo professor americano Scott Galloway, da New York University, mostra que o faturamento combinado de empresas como Facebook, Google, Amazon e Apple resultaria em um valor que colocaria essa companhia na sexta posição de país com maior PIB do mundo. Ao mesmo tempo, elas retornam pouco dinheiro para a sociedade. A Amazon é um exemplo: enquanto o Walmart pagou US$ 64 bilhões em impostos de 2008 a 2016, a companhia fundada por Jeff Bezos devolveu US$ 1,4 bilhão aos cofres públicos.

O mesmo aconteceu, segundo o professor, quando o Facebook comprou o WhatsApp por US$ 19 bilhões. A empresa de Zuckerberg afirmou que não combinaria os dados das plataformas e que não era possível divulgar dados pessoais dos usuários do WhatsApp. Logo, os órgãos antitruste poderiam aprovar as fusões sem ressalvas, o que de fato aconteceu.

Pouco tempo depois, em agosto de 2016, Zuckerberg anunciou que faria exatamente o que prometeu não fazer. Resultado: uma multa de US$ 122 milhões, cerca de 0,6% do total da aquisição. “Estamos dizendo para essas empresas que a melhor coisa a se fazer é mentir e trapacear”, acusou Galloway durante uma palestra. “Estamos dando multas de centavos em tíquetes de estacionamento, enquanto o preço da hora passa dos US$ 100”.

A questão é que órgãos antitruste costumam regular empresas que se utilizam das suas posições dominantes para cobrar preços abusivos dos consumidores. Não é o caso das empresas de tecnologia. A maioria das ferramentas está disponível para os consumidores de maneira gratuita ou bem acessível. Mas e se o jogo mudar lá na frente?

Muitos especialistas concordam que é necessário ter algum tipo de controle, mas eles defendem que a regulação seja feita de maneira inovadora. Hoje, os dados são mais valiosos do que o petróleo, segundo especialistas. Logo, em uma fusão ou aquisição entre empresas de tecnologia, não é possível olhar somente para o tamanho das empresas, mas sim para o tipo de controle que terão a partir desse negócio.

Uma das opções seria a remuneração dos próprios usuários pelos seus dados. Afinal, como parte dessas empresas sequer cobram para as suas plataformas serem utilizadas, o próprio usuário acaba se tornando o produto. Empresas discordam dessa visão.

“Não acredito que a melhor saída seja pagar pelos dados dos usuários; afinal, é com eles que conseguimos dar mais benefícios, como descontos e promoções”, afirma Fernando Teles, presidente da Visa no Brasil, que trabalha com os dados financeiros dos seus clientes.

Mas especialistas defendem que os usuários não podem ter um papel tão passivo na criação desses dados, pois são estimulados a entrar em determinados portais, a ver determinados produtos e afins. De acordo com uma tese criada pelos economistas Imanol Arrieta Ibarra, Leonard Goff, Diego Jiménez Hernández, Jaron Lanier e Glen Weyl, de universidades como Stanford, Yale e Columbia, o jogo deve e precisa mudar.

“Na economia digital, os dados do usuário normalmente são tratados como capital por empresas que observam apenas os indivíduos passivamente”, diz parte do artigo. “Isso negligencia o papel do usuários na criação dos próprios dados”. O próximo passo dos dados, portanto, pode significar uma participação mais ativa dos usuários, que poderiam ganhar mais do que simples descontos e propagandas direcionadas.

As empresas de tecnologia defendem que os dados sejam gratuitos. Sem isso, a inovação não será tão fluida e pode prejudicar o andamento de invenções bem úteis. É um bom argumento. Porém, Glen Weyl, um dos autores do artigo e que trabalha na área de pesquisa da Microsoft, acusa empresas de tecnologia de utilizar esses dados para criar monopólios. “Elas dizem que é prejudicial dar propriedade intelectual aos dados, mas criam patentes para proteger os dados das próprias plataformas”, disse ele. A discussão vai longe.

O futuro do Facebook

Antes da mais recente crise, Zuckerberg dizia para quem quisesse ouvir: o Facebook é uma plataforma social, uma ferramenta, e não uma mídia. Logo, para ele, boa parte das responsabilidades de controle que atribuem à empresa não é justa. Não é bem assim, no entanto, que a companhia é vista por muitos. A Diageo, uma das maiores fabricantes e distribuidoras de bebidas de todo o mundo, por exemplo, enxerga o Facebook como mídia.

Não por acaso, tem utilizado as páginas de suas marcas como Johnnie Walker e Smirnoff mais para fazer propagandas do que de fato uma plataforma social. “Colocamos o Facebook como um tipo de mídia, assim como as outras”, afirma Alvaro Garcia, diretor de marketing da Diageo.

Isso vai totalmente contra o posicionamento de Zuckerberg. Em um de seus pronunciamentos, a partir de uma carta, ele repetiu diversas vezes que o Facebook irá se tornar uma infraestrutura oficial e assim continuará o sendo. “Isso acontecerá para nos sustentar, nos manter seguros, nos informar, para o engajamento cívico e a inclusão de todos”, escreveu ele.

A questão principal é até que ponto o Facebook continuará tendo essa influência. Casos de redes sociais que viveram o apogeu e a queda em poucos anos são recorrentes. Quem se lembra do MySpace e do Orkut, por exemplo? O Google+ é praticamente um natimorto.

Enquanto isso, duas redes sociais vêm conquistando o status de queridinhas dos usuários e das marcas: YouTube e Instagram, controladas por Google e Facebook, respectivamente. Um estudo feito pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e a consultoria Socialbakers mostra o potencial das redes perante o Facebook.

De 2014 a 2017, a utilização do YouTube por marcas aumentou 800%, enquanto no Instagram o salto ultrapassou os 2000%. Nesse mesmo período, o Facebook teve um avanço de módicos 34%. Mais do que isso, as gerações mais novas não veem tanta vantagem em ter contas no Facebook. Elas preferem comunicações mais rápidas e interativas, que são possíveis no próprio Instagram, assim como o Snapchat. “O Facebook continua sendo um participante fortíssimo do mercado, mas não terá tanta influência no futuro”, afirma Alex Salkever.

Outro fator para o qual o Facebook precisará se atentar é quanto ao vício das pessoas nas redes sociais. A rede social, assim como concorrentes, tem o interesse de que os usuários fiquem o maior tempo na plataforma o maior tempo possível. E ela tem conseguido isso. Porém, isso não está se desenhando de uma maneira positiva. Um estudo da Universidade de Chicago, publicado em 2016, mostrou que é mais difícil resistir àquela espiada no Facebook e no Twitter do que recusar um cigarro ou um copo de bebida alcoólica.

De acordo com outro levantamento feito pela Royal Society for Public Health, do Reino Unido, as redes sociais estão intrinsecamente ligadas aos problemas mentais que jovens entre 14 e 24 anos estão desenvolvendo, como depressão e ansiedade. O Instagram foi considerado o mais nocivo, seguido por Snapchat e Facebook.

“As redes sociais ainda são uma coisa nova e estamos experimentando os efeitos delas, assim como as primeiras pessoas experimentaram a radioatividade e pensaram que se tratava de uma coisa boa, pois brilhava no escuro”, diz Christian Dunker, psicanalista e professor da Universidade de São Paulo. “Ainda estamos tendo contato com os efeitos, que podem ser positivos ou negativos no longo prazo”.

O Facebook se movimenta para não ser uma vítima do próprio sucesso. E a rede parece ter percebido isso. No dia 21 de março, Zuckerberg finalmente se pronunciou. Em seu perfil no Facebook, ele foi duro consigo mesmo e com a empresa. “Nós temos a responsabilidade de proteger os seus dados, se não conseguirmos é que não merecemos servir vocês”, disse ele.

É necessário destacar, porém, que o Facebook foi uma rede social que, apesar de diversos defeitos, revolucionou a forma de nos comunicarmos. Seus servidores deram espaço para as mais de 2,1 bilhões de pessoas se expressarem e compartilharem de textos políticos a memes. Movimentos políticos históricos surgiram por meio das comunidades, como a Primavera Árabe, que derrubou diversos regimes na África e no Oriente Médio.

Por aqui, também não teria sido possível eventos tão naturais como as manifestações de junho de 2013 terem obtido tamanha força. Da mesma forma, as mulheres começaram a se posicionar quanto à discriminação de gênero e o preconceito racial nunca esteve tanto em discussão. É necessário aplaudir esse tipo de espaço que as redes sociais criaram para nós. Mas é bom o Facebook começar a olhar de maneira mais empática para o futuro para o seu próprio bem. Um belo exemplo ele tem bem ali, na porta de casa: a placa da Sun Microsystems.

As desculpas de Zuckerberg

O fundador do Facebook deu uma série de entrevistas após o escândalo com a Cambridge Analytica. Confira os principais trechos:

“Sinto-me profundamente desconfortável sentado aqui na Califórnia em um escritório tomando decisões sobre políticas de conteúdo para pessoas de todo o mundo. Eu só quero tomar as melhores decisões possíveis. E sempre acho que há processos melhores, mas que ainda não descobri. Mas é o meu trabalho, certo?”, em entrevista ao Recode

“Talvez eu era muito idealista do lado da portabilidade de dados, pois pensava que poderia criar mais boas experiências. De fato, criamos algumas, mas acho que a resposta clara da nossa comunidade foi que ela valoriza muito mais a privacidade”, em entrevista ao site Recode

“É um processo complexo. Não vai ser da noite para o dia. Vai ser caro para nós, e vai demorar um pouco. Mas veja, dada a situação aqui, que escolha nós temos?”, em entrevista ao jornal The New York Times

“Eu não acho que tenhamos visto um número significativo de pessoas querendo deletar o Facebook, mas mesmo assim não é bom. Eu acho que é um sinal claro de que este é um grande problema de confiança e eu realmente entendo isso. Se as pessoas excluem o aplicativo ou simplesmente não se sentem bem em usar o Facebook, trata-se de um grande problema que temos a responsabilidade de corrigir”, em entrevista ao jornal The New York Times

“A razão pela qual não fui depor no Congresso até agora é porque há pessoas na empresa cujo trabalho é lidar com a conformidade legal de algumas dessas coisas. Portanto, não sei se eu seria a pessoa certa. No entanto, eu ficaria feliz de ir”, em entrevista à revista Wired

“Precisamos de muito trabalho duro para tornar mais difícil a países, como a Rússia, interferirem nas eleições de outras nações, além de evitar que trolls e outras pessoas espalhem notícias falsas. Há uma grande eleição na Índia este ano e outra no Brasil, entre outras ao redor do mundo. Pode apostar que estamos realmente comprometidos em fazer tudo o que precisamos para garantir que a integridade dessas eleições seja garantida”, em entrevista à emissora CNN

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