Atualmente existe uma epidemia de cesáreas desnecessárias?

Duas novas propostas de normativos foram colocadas em consulta pública pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Ambas visam diminuir o número de partos cirúrgicos

Por: - 49 anos atrás

Raquel  passou a gravidez toda planejando um parto normal. “Desde o começo da gravidez eu falei pra minha médica que queria parto natural, sem anesteasia, mas como não tinha nenhum grupo de apoio na época, nem doula aqui na Baixada Santista , nem nada pra me apoiar, eu não percebi que o tempo todo ela deu a entender que eu iria cair no golpe da cesárea de emergência. Ela falava que eu não iria aguentar a dor, que se eu queria tanto pn que ela podia usar anestesia, e quando eu falava que não, que queria natural, ela ria. Hoje eu tenho consciência de que eram sinais de que ela não queria fazer um parto, mas uma cirurgia”.

Hoje a jornalista Raquel Gomes, na segunda gravidez, tem pesadelos com a cesárea eletiva. Essa é apenas uma personagem da mesma história: mães que não conseguem protagonizar um momento único, aquela uma coisa para a qual seu corpo foi todo desenhado para realizar: o parto.

A cesárea é um assunto polêmico entre gestantes, mães, médicos e planos de saúde. Existe, sim, uma demonização da modalidade que não é real, muitas vezes o procedimento é, sim, necessário. No entanto, são crescentes os relatos de mães que poderiam ter tido seus filhos da maneira natural, mas não tiveram escolha.

A intenção de ambas é reduzir o número cesarianas desnecessárias entre consumidoras de planos de saúde. Entre as medidas sugeridas pela Agência, está a ampliação do acesso à informação pelas beneficiárias, que poderão solicitar as taxas de cesáreas e de partos normais por estabelecimento de saúde e por médico ? independentemente de estarem grávidas ou não.

As propostas para a mudança do modelo de assistência vigente foram anunciadas em Brasília, pelo ministro da Saúde, Arthur Chioro, e o diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), André Longo. As medidas foram elaboradas por um Grupo de Trabalho específico constituído por servidores da ANS.

Na ocasião, o ministro da Saúde destacou a importância do enfrentamento ao que pode ser considerada uma epidemia de cesarianas no país. “No setor privado, o percentual que temos de partos cesáreos deveríamos ter de partos normais. Respeitar a mulher é, acima de tudo, disponibilizar a ela todas as informações sobre o parto normal e fazer com que o parto cirúrgico seja adotado apenas quando indicado”, ressaltou Chioro.

Além da transparência das informações, as resoluções preveem ainda a apresentação do partograma, um documento que deverá conter as anotações do desenvolvimento do trabalho de parto, das condições maternas e fetais. O documento, além de uma importante ferramenta de gestão para as operadoras, será parte integrante do processo para pagamento do parto. Em casos excepcionais, o partograma poderá ser substituído por relatório médico detalhado.

“O partograma vai mostrar a evolução do parto, com as informações sobre dilatação, contrações, que vão auxiliar, inclusive, na troca de plantão médico. Com o documento, será possível identificar a realização das cesárias sem indicação médica. No entanto, mais do que adotar medidas coercivas, a ANS acredita que é necessária uma mudança de cultura. A Agência vai fiscalizar essas ações assim que as resoluções entrarem em vigor e contamos com o apoio das mulhres nesse processo”, explicou o diretor-presidente da ANS, André Longo.

As resoluções também incluem a distribuição, por parte das operadoras de planos de saúde, do Cartão da Gestante com a Carta de Informação à Gestante, instrumento para registro das consultas de pré-natal, com orientações e dados de acompanhamento da gestação.

A cesariana, quando não tem indicação médica, ocasiona riscos desnecessários à saúde da mulher e do bebê: aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe. Atualmente, no Brasil, o percentual de partos cesáreos chega a 84% na saúde suplementar.

“Não estamos demonizando a cesariana. Existem muitos casos em que elas salvam vidas. A cesariana é uma conquisa científica, mas não ter este excesso. A escolha do modelo de parto é, fundamentalmente, uma questão de saúde, e deve estar condicionada ao que for mais adequado para cada caso e ao que for mais seguro para a mãe e o bebê”, destacou a gerente de Atenção à Saúde da ANS, Karla Coelho.

“Partindo do princípio que a maioria das mulheres engravidam de um  ato de amor, conclui que minha filha nasceu do amor, amor que me fez decidir, escolher, pode-se usar a palavra que quiser. Sempre que se fala em tipos de partos surgem as  discussão sobre o que é melhor para a mãe e o bebê, que a mãe tem que ser a protagonista. Existem aquelas que defendem o Parto Normal ou Humanizado e chegam a serem radicais, dizem que não há riscos, que é tudo muito lindo. Não discordo e nem quero levantar bandeira para que a Cesárea seja a maioria, mas a verdade é que  tudo é muito lindo se você pode pagar”. É o que diz a catarinense de Blumenau, Silma Matos, em seu blog, sobre o nascimento de sua filha.

Para Silma, importante mesmo foi ter um plano de parto. Durante o curso de gestante foi bem ressaltado o quanto o parto normal era melhor, no hospital que a minha filha nasceu eles tinham doulas e enfermeiras parteiras. Falei com meu obstetra, ele me deixou à vontade para decidir, pois o hospital tinha estrutura para qualquer tipo de parto, mas eu só pensava no bebê, primeiro filho, que no caso foi filha. Já com 40 anos, eu me perguntei se valeria a pena mesmo fazer o parto normal, tive medo, mesmo com todos me apioando. A enfermeira que me acompanhou era um doce de criatura, acostumada com PN, me deixou super tranquila, sempre dizendo que eu era a mãe, eu decidia o que fosse melhor pra mim e pro bebê”, diz.

Mas a história de Silma deixa uma outra reflexão: todo o pré natal foi rezlizado com plano de saúde e o parto foi particular. Portanto, o desafio é fazer com que haja uma sinergia comportamental e o protagonismo da mãe, não em detrimento de sua saúde, mas de forma consciente, passe a ser padrão de saúde no Brasil – e que isso não tenha valor financeiro.

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